O primeiro debate presidencial da eleição de 2026 foi ao ar na noite de domingo, 23 de agosto, e terminou marcado menos pelo que foi dito do que por quem não estava lá. Dos seis presidenciáveis convidados, apenas três participaram: o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e o escritor Augusto Cury (Avante). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) declinaram do convite. Foi o encontro mais esvaziado desde 1989, quando houve a primeira eleição presidencial direta após a ditadura militar.
A própria ausência pautou o programa do começo ao fim. Augusto Cury chegou ao estúdio e anunciou que não entraria, afirmando que a entrevista concedida por Lula a outra emissora no mesmo horário havia sido a gota d'água; depois voltou atrás e participou. O próximo debate está marcado para 14 de setembro.
A cobertura de centro e a de direita convergem no diagnóstico de que não houve vencedor capaz de virar o jogo, mas de que Renan Santos foi quem mais extraiu proveito da noite. Candidato com 4% das intenções de voto em agregador de pesquisas e sem tempo garantido de rádio e televisão na propaganda eleitoral, ele usou o palco para atacar Lula e Flávio Bolsonaro em todos os blocos e para defender uma plataforma de segurança pública de linha dura, que inclui decretar estado de defesa e Garantia da Lei e da Ordem em regiões dominadas pelo crime organizado e construir superpresídios sem separação de facções. Ronaldo Caiado apostou na gestão em Goiás como vitrine, prometeu levar a taxa de juros a patamares de 6%, defendeu conter despesas e cobrou de Flávio Bolsonaro explicações sobre o dinheiro pedido ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
As ênfases se separam a partir daí. Veículos de centro registraram o tom das falas de Renan Santos, que chamou o presidente de ladrão, bêbado e tranqueira, classificou parte do eleitorado adversário como canalha, atacou a primeira-dama Rosângela da Silva e se posicionou contra o projeto que prevê o fim da escala 6x1. Essa mesma cobertura trouxe dois cientistas políticos que divergem sobre o alcance do desempenho: um deles avalia que o eleitor cansado da polarização tende a se abrir para candidatos disruptivos e que o efeito recairá sobre a disputa pela terceira posição, enquanto a outra pergunta se um personagem concebido para gerar engajamento é capaz de produzir confiança. O mesmo texto lembra que a permanência do Missão em debates futuros é incerta, porque a Lei das Eleições garante vaga a partidos, federações ou coligações com pelo menos cinco parlamentares, e a legenda tem apenas o deputado federal Kim Kataguiri.
Veículos de direita deslocaram o foco para o custo da ausência. Nessa leitura, Romeu Zema foi o grande derrotado da noite, por aparecer com percentuais entre 2% e 3% nas pesquisas, precisar de exposição e correr o risco de colar em si a imagem de quem foge do enfrentamento. A estratégia de Renan Santos é tratada como compreensão correta da lógica das redes sociais, medida pela capacidade de gerar cortes que circulam depois do programa, e não pelo conteúdo das falas, que não são reproduzidas. Já Lula e Flávio Bolsonaro teriam justificativa estratégica para faltar, por terem mais a perder do que a ganhar. Até o fechamento desta reportagem, nenhum veículo de esquerda havia publicado análise do debate no conjunto de fontes reunido, e o enquadramento crítico ao tom das agressões apareceu apenas de forma indireta, na transcrição feita pela cobertura de centro.
Ainda não se sabe qual será o efeito do encontro nas intenções de voto. Os analistas ouvidos consideram consolidado o eleitorado dos dois primeiros colocados e apontam a disputa pela terceira posição como a única fatia realmente móvel. Também não há resposta pública de Flávio Bolsonaro sobre o financiamento da cinebiografia, nem confirmação de quem comparecerá ao debate de 14 de setembro, nem definição sobre o direito do Missão de participar dos próximos confrontos.