A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) decidiu levar as investigações sobre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, para o horário eleitoral gratuito e para as inserções de rádio e televisão da disputa presidencial. A ofensiva, até agora concentrada nas redes sociais, passa a ocupar o espaço de maior alcance da campanha a partir de 29 de agosto, data prevista para a estreia da propaganda presidencial, exibida às terças, quintas e sábados. Do outro lado, a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trabalha para tirar o assunto do centro do debate e, reservadamente, admite que o episódio afetou o ânimo da militância na reta final.
Os dois conjuntos de cobertura convergem no essencial. Fábio Luís é alvo de três inquéritos por suspeita de tráfico de influência e nega irregularidades. As apurações ganharam novo capítulo com mensagens obtidas pela Polícia Federal que mostram tratativas de negócios entre ele e a lobista Roberta Luchsinger, nome que também aparece na investigação sobre os descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social, o INSS. O ex-chefe de gabinete do presidente, Marco Aurélio Ribeiro, conhecido como Marcola, integra o mesmo enredo. As primeiras gravações da propaganda do candidato do PL foram feitas em 19 de agosto, e o caso deve dividir a peça com o tema do custo de vida. Em entrevista concedida em 23 de agosto, Lula afirmou que não interfere nas apurações e que quem tiver causado prejuízo aos cofres públicos deverá responder. Dois dias depois, ao deixar a cerimônia do Dia do Soldado no Quartel-General do Exército, em Brasília, o presidente não respondeu às perguntas sobre o filho e sobre o ex-assessor.
A divergência aparece no que cada lado considera ser o fato central. Veículos de direita enfatizaram a substância das suspeitas e o vínculo entre o círculo familiar do presidente e a fraude que atingiu aposentados, tratando a entrada do caso na propaganda como informação devida ao eleitor que não acompanha a disputa pela internet, e destacaram a avaliação de que inserções curtas alcançam quem evita o bloco eleitoral tradicional. A cobertura de centro relatou o mesmo movimento pela chave do cálculo eleitoral: o partido do presidente avalia que a repercussão do caso já bateu num teto, mas reconhece que ele virou material de campanha do adversário e vai acompanhar a corrida até o segundo turno. Nessa leitura, o temor específico de Lula não é o inquérito em si, e sim a desmobilização do eleitor engajado na semana decisiva, quando pesa o chamado antipetismo de chegada; a resposta seria intensificar o corpo a corpo dos diretórios em quase todas as cidades do país.
A leitura à esquerda não aparece no conjunto de cobertura reunido aqui, e o argumento mais próximo dela vem da defesa: o advogado Marco Aurélio de Carvalho sustenta que uma ala da Polícia Federal atua com viés eleitoral e promove vazamentos seletivos, e a campanha petista escolheu como estratégia jurídica conter esses vazamentos e questionar o modo como as informações são divulgadas. Veículos de esquerda tendem a organizar o caso por esse eixo, o de um inquérito sem denúncia formal convertido em peça publicitária, e a lembrar que as vítimas concretas da fraude do INSS são aposentados de baixa renda.
O pano de fundo é uma disputa apertada. Pesquisa do instituto Nexus contratada pelo banco BTG Pactual, divulgada em 24 de agosto e registrada no Tribunal Superior Eleitoral, mostra Lula com 41% e Flávio Bolsonaro com 37% no principal cenário de primeiro turno, contra 40% e 36% na rodada anterior. No segundo turno, são 46% a 45%. O levantamento ouviu 2.006 eleitores entre 21 e 23 de agosto, com margem de erro de dois pontos percentuais.
O que ainda não se sabe é o principal. Não há denúncia formal nem imputação contra Fábio Luís, e nenhuma das coberturas descreve ato de ofício que ligue as conversas com a lobista a decisão de governo. Também não estão públicos o teor integral das mensagens, a fase de cada um dos três inquéritos e a origem dos vazamentos apontados pela defesa. Falta ainda medir se a entrada do caso na propaganda de televisão altera a intenção de voto ou apenas reforça convicções já formadas.