A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro renunciou à presidência do PL Mulher e anunciou que não fará campanha para o enteado, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência da República em 2026. A decisão é o desfecho de uma crise que vinha se arrastando dentro da família e que agora ameaça respingar sobre toda a campanha do bolsonarismo. O estopim foi uma disputa por alianças no Ceará: Flávio afirmou que o pai, Jair Bolsonaro, apoia o ex-ministro Ciro Gomes na corrida pelo governo estadual, e Michelle criticou publicamente a escolha, dizendo que não dá para 'fazer aliança com o homem que é contra o maior líder da direita'.
Os veículos de centro relataram os fatos com paridade de fontes. Uma reportagem ancorada no cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, da FGV, apresentou a saída do PL Mulher como o ponto final de um conflito acumulado e trouxe números da pesquisa AtlasIntel/Bloomberg: Flávio aparece com 36,6% das intenções de voto no primeiro turno, em queda, contra 46,3% do presidente Lula. Num cenário hipotético em que Michelle substituiria Flávio, a distância aumentaria. A cobertura de centro também registrou a avaliação de comentaristas de que a crise pode ser mais importante do que parece e que o candidato do PL enfrenta dificuldade crônica junto ao eleitorado feminino.
Os veículos de esquerda enfatizaram a dimensão de gênero do episódio. Para essa leitura, a crise expõe o machismo estrutural do bolsonarismo: Michelle foi escanteada nas decisões, reduzida ao papel de 'dona de casa' e alvo de uma ofensiva digital com ofensas de cunho sexual e misógino. Aliados de Flávio, ligados ao chamado 'núcleo dos Estados Unidos' do partido, a chamaram de 'traidora' e 'adúltera'. O empresário Paulo Figueiredo chegou a afirmar que mulheres solteiras votam 'muito mal', fala tratada como sintoma de um campo que não reconhece o protagonismo político das mulheres. Aliadas como a senadora Damares Alves também teriam sido alvo de montagens de cunho sexual.
Já os veículos de direita enquadraram a crise como um problema de articulação política a ser contornado, agravado pela prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, que o impede de comandar pessoalmente as negociações. Nessa cobertura, Flávio busca reforçar a aliança no Ceará, onde manterá agenda de campanha, e estende a mão à madrasta, tratando a divergência como assunto superado. O senador negou boatos que tentam associá-lo ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, dizendo que apenas tirou fotos com ele em situações sociais. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, tentou costurar um armistício entre madrasta e enteado, sem sucesso.
Há convergência entre os lados em pontos centrais: a crise é real, prejudica a imagem tanto de Michelle quanto de Flávio e tende a beneficiar indiretamente o governo Lula, que, segundo analistas, 'joga parado' enquanto a direita se digladia. O episódio também tirou de cena, momentaneamente, o desgaste em torno de outras pautas.
O que ainda não se sabe é se Michelle manterá a candidatura ao Senado pelo Distrito Federal, dada como praticamente certa nas pesquisas, e se de fato deixará a política. Também permanece em aberto quem seria a vice mulher que Flávio precisaria para dialogar com o eleitorado feminino, e se surgirá alguma peça capaz de dar concretude aos boatos que circulam nos bastidores. As próximas semanas, com a agenda de Flávio no Ceará, devem indicar se o rompimento é definitivo ou contornável.