A crise entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República em 2026, ganhou novos capítulos nas últimas semanas e já repercute nas pesquisas eleitorais. Michelle renunciou à presidência do PL Mulher depois de acusar o enteado de tratá-la com desrespeito nas decisões do partido, e chegou a cogitar abrir mão da própria candidatura ao Senado pelo Distrito Federal, disputa que as pesquisas dão como praticamente ganha para ela. O estopim, segundo relatos, foi uma disputa sobre alianças estaduais: Flávio confirmou que o pai apoia o ex-ministro Ciro Gomes para o governo do Ceará, aliança que Michelle rejeitou publicamente ao prestigiar o senador bolsonarista Eduardo Girão.
A cobertura de centro relatou que a tensão evoluiu para uma ofensiva digital coordenada contra Michelle, atribuída por analistas a vozes influentes do bolsonarismo nos Estados Unidos, entre elas o comentarista Paulo Figueiredo, autor de declarações consideradas machistas sobre o voto de mulheres solteiras. As mesmas reportagens descreveram um ato de campanha de Flávio voltado a mulheres, realizado a portas fechadas em Brasília, que ficou esvaziado sem a presença de senadoras e ministras da própria base, como Tereza Cristina e Damares Alves, e destacaram uma pesquisa AtlasIntel/Bloomberg mostrando Flávio com 36,6% das intenções de voto no primeiro turno, ante 46,3% do presidente Lula, com a rejeição do senador subindo de 45,4% para 48,4%.
Veículos de esquerda enquadraram o episódio como evidência do machismo estrutural dentro do bolsonarismo: uma pesquisa Meio/Ideia mostrou que 64% dos brasileiros consideram verdadeiras as denúncias de Michelle sobre o tratamento recebido de Flávio, e essa cobertura reforçou o histórico de ofensas da família a mulheres, ainda que o próprio senador tenha pedido desculpas publicamente e negado a intenção de ofender a madrasta.
Já veículos de direita, em reportagens mais extensas sobre os bastidores da crise, documentaram tanto as queixas de Michelle quanto a reação de Flávio, incluindo uma insinuação levantada por ela sobre uma festa promovida pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, que o senador classificou como desinformação. Essa cobertura também registrou que o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, tentou sem sucesso costurar uma conciliação entre madrasta e enteado antes da renúncia de Michelle.
Analistas ouvidos pela imprensa avaliam que o principal beneficiário indireto da crise é o próprio governo Lula, que vê a disputa interna do PL desviar atenção do desgaste em torno do senador Jaques Wagner, investigado por suposta ligação com uma emenda que beneficiaria o Banco Master. A crise também expõe a dificuldade histórica de Flávio para atrair o eleitorado feminino, um problema que os próprios analistas de centro descrevem como estrutural na família Bolsonaro.
O que ainda não se sabe é se Michelle manterá a candidatura ao Senado pelo Distrito Federal e se fará campanha para o enteado até outubro de 2026, tampouco há confirmação independente sobre as insinuações que ligam Flávio ao banqueiro Daniel Vorcaro, negadas pelo senador.