A poucas horas do debate presidencial marcado para domingo, 23 de agosto, a disputa deixou de ser apenas sobre quem fala no estúdio e passou a ser sobre quem consegue entrar nele. O Tribunal Superior Eleitoral proibiu Pablo Marçal, candidato à Presidência pelo PRTB, de participar de debates e de usar recursos do fundo partidário, em razão das condenações da eleição de 2024 que o tornaram inelegível. Mesmo vetado, Marçal afirma que comparecerá ao encontro, diz que usará credencial própria e sustenta que obterá uma liminar para participar. Se não conseguir, cogita ir até a porta dos estúdios, em São Paulo, para fazer uma manifestação.
O que acendeu o alerta nas campanhas adversárias foi um detalhe operacional. Cada candidatura tem direito a cinco credenciais para o estúdio e dez para uma sala auxiliar. Auxiliares de Flávio Bolsonaro, do PL, retiraram as credenciais do senador mesmo diante da expectativa de que ele não compareça ao debate. A partir daí, integrantes de outras campanhas passaram a desconfiar que uma dessas credenciais possa levar Marçal à plateia, de onde teria como constranger ou tumultuar os demais candidatos. Procurado, o candidato do PRTB negou que fosse usar credencial de outro partido. Até agora estão confirmados no debate Renan Santos, do Missão, Ronaldo Caiado, do PSD, e Romeu Zema, do Novo.
Os dois recortes de cobertura convergem em fatos centrais. Ambos registram que a proibição partiu do Tribunal Superior Eleitoral e tem origem nas condenações de 2024, que resultaram em inelegibilidade. Ambos registram que Marçal admitiu publicamente ter entrado na corrida presidencial para ajudar Flávio Bolsonaro e prometeu subir o tom contra outros nomes da direita. E ambos tratam a permanência de seu nome na disputa como provisória, dependente de análise da Justiça Eleitoral.
A ênfase, porém, se divide. A cobertura de centro concentrou-se no bastidor do credenciamento e no risco de que a regra de acesso ao estúdio seja usada para colocar no ambiente do debate alguém que a Justiça Eleitoral proibiu de participar, tratando a suspeita das campanhas como o fato jornalístico principal. Já veículos de direita deram peso à leitura de mercado eleitoral: analistas ouvidos avaliaram que Marçal pode bagunçar a campanha, obrigar adversários a responder ataques e disputar atenção nas redes sociais, sem transferência expressiva de votos, porque o eleitorado de oposição já estaria consolidado em torno de Flávio Bolsonaro, escolhido pelo próprio pai para representar o grupo. Um especialista em direito eleitoral acrescentou que Renan Santos tem hoje mais potencial de disputar essa fatia do eleitorado do que Marçal. Até o fechamento desta reportagem, veículos de esquerda não haviam publicado sobre o episódio; a leitura mais provável desse campo enfatizaria o descumprimento anunciado de uma decisão judicial e o uso do debate como palco de confronto, em vez de comparação de propostas.
Restam pontos em aberto. Não se sabe se Flávio Bolsonaro comparecerá ao debate nem por que sua equipe retirou credenciais diante da expectativa de ausência, já que a campanha não se pronunciou sobre a suspeita. Também não há confirmação de que exista pedido de liminar protocolado por Marçal, em que instância ele tramita e qual o prazo de decisão. Nenhuma das campanhas que levantaram a desconfiança foi identificada, e não há registro público de qualquer repasse de credencial. Por fim, a própria permanência da candidatura do PRTB na disputa segue pendente de decisão final do Tribunal Superior Eleitoral.