O Estreito de Ormuz voltou ao centro do mercado global de petróleo depois que o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, afirmou que a passagem segue aberta e que o óleo flui de forma bem mais rápida do que o mercado percebe. Segundo Wright, a média de sete dias do fluxo que sai pelo estreito subiu para 9 milhões de barris por dia, e no dia 8 de agosto o total exportado pela região do Golfo teria superado a marca de 20 milhões de barris. Os números contrariam ao mesmo tempo a versão do Irã, que sustenta ter fechado a via, e as estimativas das empresas privadas que rastreiam navios.
A cobertura de centro tratou o episódio como uma disputa de dados e detalhou os dois cálculos. Analistas que se apoiam em serviços como Kpler e Windward Intelligence estimam que os petroleiros retiram cerca de 4 milhões de barris por dia do Golfo Pérsico. Somados aos cerca de 7 milhões que os países do Oriente Médio redirecionaram por oleodutos e outras rotas, o total fica entre 11 e 12 milhões de barris diários, contra os 20 milhões que a região exportava antes da guerra com o Irã. O diretor de pesquisa de commodities da Kpler, Matt Smith, disse não ser possível conciliar a disparidade entre o que a empresa observa e o número citado pelo secretário. Tanto a Kpler quanto a Windward registraram cerca de cinco navios deixando o estreito no dia em que Wright falou em 20 milhões de barris, quando antes da guerra passavam mais de cem embarcações por dia.
Veículos de esquerda destacaram outro ângulo do mesmo fato: a existência de um corredor marítimo estabelecido em segredo pelo governo dos Estados Unidos, ao sul do estreito e próximo à costa de Omã, por onde de 15 a 20 petroleiros passariam diariamente sob escolta militar. Nessa versão, atribuída a dois funcionários americanos, cerca de 10 milhões de barris por dia deixam o Golfo, aproximadamente metade do volume anterior ao conflito. A operação também ajuda petroleiros vazios a entrar no Golfo pelo Mar da Arábia, carregar nos portos produtores e retornar pela mesma rota. Um funcionário afirmou que os Estados Unidos controlam a faixa marítima ao sul há cerca de dois meses e que a Guarda Revolucionária Islâmica não teria domínio sobre o canal, ressalva incluída na reportagem como avaliação de um dos beligerantes, não como fato verificado. O mesmo texto lembra que o trânsito comercial segue muito abaixo do nível pré-guerra e que apenas seis embarcações de commodities cruzaram o estreito no dia 18 de agosto, ante média recente de onze por dia.
Até o fechamento desta análise, nenhum veículo de direita havia coberto o episódio. Pelos fatos disponíveis, o enquadramento previsível desse campo é o da eficácia militar: a Marinha americana manteve aberta uma rota que o Irã tentou fechar a golpes contra navios civis, o Departamento de Energia trabalha com informação operacional que o setor privado não tem, e os rastreadores subestimam o volume justamente porque metade do tráfego recente é clandestino. É a leitura que o próprio material de centro registra na fala de um gestor de energia favorável aos números oficiais, resumida na fórmula de confiar, mas verificar.
Onde as coberturas convergem é no diagnóstico de opacidade. O Irã intensificou os ataques a embarcações, e aliados houthis fizeram o mesmo no Mar Vermelho, o que levou navios a mascarar posição e carga para escapar. Cerca de metade do tráfego rastreado pela Kpler no estreito nas últimas semanas foi de trânsitos clandestinos, contra um oitavo um mês antes. Um economista da Capital Economics, Hamad Hussain, avalia que, quando esses petroleiros religarem os transponders, o mercado deve descobrir que saiu mais petróleo da região do que se calculava.
O que ainda não se sabe é o volume real. Nenhuma fonte independente confirmou os 9 milhões de barris por dia nem o pico de 20 milhões, e nenhum lado divulgou a metodologia que sustenta seus números. Também não há informação pública sobre quanto tempo o corredor escoltado se mantém, sobre a resposta oficial do Irã à alegação de perda de controle do canal, nem sobre a duração do efeito desses fluxos sobre estoques e preços globais.