O Itamaraty negou, em 25 de julho de 2026, os vistos de Riley Barnes e Samuel Samson, dois funcionarios do Departamento de Estado dos Estados Unidos ligados ao governo de Donald Trump. Os dois pretendiam viajar ao Brasil alegando discutir liberdade de expressao no contexto das eleicoes e, segundo integrantes do governo brasileiro, planejavam se encontrar com o senador Flavio Bolsonaro, pre-candidato do PL a Presidencia da Republica. A propria Embaixada dos Estados Unidos no Brasil havia avisado previamente as autoridades brasileiras sobre o encontro pretendido.
Os pedidos de visto foram apresentados em 20 de julho, por meio do Consulado-Geral do Brasil em Washington, e encaminhados ao Itamaraty por nota verbal. Ao mesmo tempo, os diplomatas pediram a Embaixada em Brasilia que agendasse conversas com membros do governo brasileiro. Foi nesses contatos que veio a tona a intencao de tambem se reunir com Flavio Bolsonaro, que nao ocupa cargo no Executivo federal. O governo avaliou haver risco concreto de instrumentalizacao da visita para questionar a integridade das urnas eletronicas em um contexto pre-eleitoral, sobretudo porque Flavio Bolsonaro vinha levantando suspeitas sobre o sistema, inclusive em evento com diplomatas. A negativa foi anterior a uma reportagem do Washington Post que expos o plano, o que reforca, na versao oficial, que o Brasil agiu por avaliacao propria e nao como reacao a pressao da imprensa internacional.
Em ambos os enquadramentos ha convergencia sobre o essencial: os vistos foram negados, os enviados queriam encontrar Flavio Bolsonaro e o governo citou o risco eleitoral como motivo. Veiculos de esquerda destacaram a leitura de que se tratava de tentativa de interferencia estrangeira nas eleicoes, associando a justificativa de liberdade de expressao ao vocabulario da direita trumpista e bolsonarista e realcando a defesa da soberania nacional. Nessa cobertura, ganha peso a fala do presidente Luiz Inacio Lula da Silva, que na convencao do PSB, em 29 de julho, afirmou que nao permitira que ninguem de fora meta o bedelho nas eleicoes brasileiras, com recados diretos a Trump e ao presidente argentino Javier Milei.
A cobertura de centro relatou os fatos de forma mais descritiva, detalhando o tramite da nota verbal, as datas e o aviso previo da Embaixada. Ja veiculos de direita enfatizaram as consequencias da decisao para o Brasil: a possibilidade de reciprocidade na emissao de vistos a autoridades brasileiras, os dois aumentos tarifarios recentes dos Estados Unidos sobre produtos nacionais, de 25% e 12,5%, e a declaracao do secretario de Estado Marco Rubio, que atribuiu ao ego de Lula o anuncio da tarifa de 25%. Nesse enquadramento, a recusa aparece dentro das prerrogativas do Estado, mas tensiona ainda mais a ja delicada relacao diplomatica e comercial entre os dois paises.
Ainda ha pontos em aberto. Nao se sabe se Barnes e Samson farao nova solicitacao de visto, nem qual sera a resposta concreta de Washington. Tambem permanece indefinido se havera medidas de reciprocidade dos Estados Unidos e qual seu eventual alcance. A Embaixada dos Estados Unidos afirmou que nao comenta reunioes privadas, e a versao dos proprios diplomatas sobre os objetivos da viagem nao foi apresentada.