A poucos meses das eleições presidenciais de outubro de 2026, a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL, passou a envolver atores estrangeiros e plataformas de tecnologia. O pano de fundo é o tarifaço do governo de Donald Trump sobre produtos brasileiros e uma série de gestos de apoio internacional ao bolsonarismo.
A cobertura de centro relatou, com base em pesquisa Datafolha divulgada no fim de julho, que 52% dos brasileiros acreditam que a elevação de tarifas dos Estados Unidos busca favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro, contra 37% que discordam. O mesmo levantamento mostra o eleitorado dividido sobre a responsabilidade pela crise comercial: 35% apontam Lula como principal responsável pela punição americana, enquanto os irmãos Bolsonaro somam 23%. A maioria, 74%, defende que o Brasil negocie uma saída em vez de retaliar.
Veículos de esquerda foram além do dado e enquadraram os episódios como uma ofensiva coordenada da ultradireita internacional. Nessa leitura, Trump, o presidente argentino Javier Milei e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu agiriam em conjunto para turbinar o discurso de fraude eleitoral e sustentar a candidatura de Flávio. Milei discursou na convenção do PL, ele e Netanyahu gravaram vídeos de apoio ao senador, e Eduardo Bolsonaro se reuniu com o premiê israelense na Blair House, em Washington. Esses veículos também destacaram a mudança, pelo presidente do TSE, Kássio Nunes Marques, da Portaria 463, que afrouxaria as regras para as big techs, e relacionaram a rede a interesses econômicos e ao histórico de espionagem com tecnologia israelense na América Latina.
Veículos de direita, por sua vez, concentraram-se em reportar a avaliação do Palácio do Planalto e registraram a negativa do senador, que afirmou não ter lançado dúvidas sobre as urnas e apenas pedido mais observadores internacionais. Essa cobertura ressaltou que o governo não apresentou provas da suposta coordenação e que a acusação parte, em boa medida, de interlocutores anônimos ligados a Lula, além de lembrar que boa parte do eleitorado responsabiliza o próprio governo pela crise comercial.
Os relatos convergem em pontos factuais: houve o tarifaço, os vídeos de apoio estrangeiro existiram, e o caso do vídeo gerado por inteligência artificial com a imagem de Jair Bolsonaro, exibido na convenção do PL, foi encaminhado por Alexandre de Moraes ao TSE, podendo resultar em ação contra a candidatura de Flávio.
O que ainda não se sabe é se a Justiça Eleitoral abrirá processo capaz de cassar a candidatura do senador, se existe prova concreta de articulação entre os governos estrangeiros e a campanha, e qual será o desfecho das investigações que miram Flávio Bolsonaro e seus aliados.