Uma ala do Supremo Tribunal Federal passou a avaliar, em conversas reservadas, que houve uma jogada de bastidor para tirar do ministro André Mendonça a relatoria do inquérito que investiga Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula. Segundo essa avaliação, as cúpulas da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República teriam agido em sintonia com o ministro Alexandre de Moraes, que preside a corte durante o recesso, para evitar que o caso ficasse com Mendonça. Por uma ironia do trâmite, o sorteio acabou devolvendo o inquérito exatamente ao ministro que se buscava evitar.
A cobertura de centro relatou o rito com detalhe. A investigação nasceu de elementos encontrados no caso do INSS, cujo relator é Mendonça, e trata de suspeita de tráfico de influência de Lulinha em favor do canabidiol junto ao Ministério da Saúde. Ao encaminhar a representação ao Supremo, a Polícia Federal sustentou que se tratava de fatos distintos do processo do INSS e que o correto seria sortear um novo relator. Moraes recebeu o pedido no dia 24, ouviu a PGR, chefiada por Paulo Gonet, que concordou com a livre distribuição, e então mandou o caso a sorteio. O resultado recaiu novamente sobre Mendonça.
Os dois lados da cobertura convergem nos fatos centrais: o pedido de livre distribuição partiu da PF, a PGR não se opôs, Moraes determinou o sorteio e o inquérito voltou a Mendonça. Também há convergência sobre o pano de fundo de tensão entre o ministro e os órgãos de investigação, incluindo a troca de delegados no caso do INSS e o pedido da corporação à Advocacia-Geral da União em busca de um instrumento jurídico para conter decisões do magistrado.
As ênfases divergem. Veículos de direita enfatizaram a ideia de um "drible": a PF teria buscado dar tratamento especial ao filho do presidente e aproveitado o recesso, com Moraes na presidência, para evitar que a decisão coubesse a Edson Fachin, que respalda Mendonça. Nesse enquadramento, a sequência de trocas de delegados e o acionamento da AGU são lidos como pressão política sobre a autonomia do Judiciário, e ganha relevo o fato de o inquérito atingir um candidato à reeleição num ano em que a oposição é liderada por Flávio Bolsonaro. A leitura de veículos de esquerda enfatizaria o contrário: a PF e a PGR agiram dentro do rito ao pedir a livre distribuição de um caso que consideram tratar de fatos distintos, e o sorteio é justamente o mecanismo impessoal que assegura imparcialidade. Nesse prisma, chamaria atenção que o ministro que reivindica o caso foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro, e transformar um trâmite processual em conspiração poderia servir a interesses eleitorais.
O que ainda não se sabe é se de fato houve coordenação deliberada entre PF, PGR e Moraes, ou se a coincidência do sorteio apenas alimentou a suspeita. A Polícia Federal nega pressão política. Também seguem em aberto o desfecho do pedido feito à AGU contra as decisões de Mendonça e o mérito da própria suspeita de tráfico de influência que recai sobre o filho do presidente.