O senador Flávio Bolsonaro teve sua candidatura à Presidência oficializada pelo PL em convenção realizada em 25 de julho, em São Paulo, e chegou ao fim do prazo das convenções partidárias sem coligação nacional. Republicanos, Podemos e União Brasil anunciaram neutralidade na disputa em 4 de agosto, somando-se ao PP, que já havia tomado a mesma decisão. Sem partidos aliados, o senador foi obrigado a montar chapa pura e anunciou o deputado Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente em 5 de agosto, depois de tentar atrair a senadora Tereza Cristina, cuja legenda vetou a aliança.
A cobertura de centro relatou os efeitos práticos desse isolamento. Sem coligação, a candidatura terá cerca de 20% menos tempo de propaganda no rádio e na televisão do que a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de não contar com estrutura nem verba de outras legendas. Essas reportagens também registraram as duas explicações que circulam nos bastidores. Dirigentes do centrão atribuem o vazio de apoios à falta de articulação do senador e de seu coordenador de campanha; integrantes do PL culpam a pressão do governo federal sobre os partidos e afirmam que o receio de investigações da Polícia Federal e de ministros do Supremo Tribunal Federal afastou possíveis aliados. Um dirigente partidário próximo à corte nega essa influência e classifica o argumento como transferência de responsabilidade. A aposta declarada pelo PL é reagrupar apoios em um eventual segundo turno.
Ainda na cobertura de centro, um levantamento de circulação de mensagens em grupos públicos de aplicativos mostrou que o senador segue majoritário no campo conservador, com a maior parte das menções, ainda que fortemente dependente de difusão coordenada. Os demais nomes da direita, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, dividem fatias menores e semelhantes entre si, o que sugere uma disputa interna ainda indefinida. O próprio levantamento adverte que circulação de discurso não equivale a intenção de voto.
Veículos de esquerda deram peso a outro eixo: o de que a candidatura reedita a estratégia de deslegitimação do sistema eleitoral. Essa cobertura destacou a reunião com diplomatas estrangeiros em 22 de julho, quando o senador questionou a segurança das urnas eletrônicas, mencionou a empresa Smartmatic e pediu observadores internacionais para outubro, e associou o episódio à internacionalização da disputa presidencial. Os mesmos veículos repercutiram declarações do candidato sobre as próprias filhas, feitas no lançamento da chapa, como evidência de uma visão conservadora sobre o papel das mulheres, justamente quando a campanha tenta reduzir a rejeição entre o eleitorado feminino.
Não há, neste conjunto de reportagens, cobertura de veículos de direita. Pela leitura que esse campo costuma adotar, o foco recairia sobre as restrições impostas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, sobre a tese de perseguição judicial e sobre a pressão do Palácio do Planalto para esvaziar a oposição. Foram esses os temas explorados pelo próprio candidato em discurso na convenção estadual em Santa Catarina, em 1º de agosto, quando chamou o presidente da República de projeto de ditador, prometeu endurecer a legislação penal e criticou a carga tributária sobre o consumo.
No campo jurídico, o vídeo gerado por inteligência artificial em que Jair Bolsonaro aparece declarando apoio ao filho virou alvo de ação do PT no Tribunal Superior Eleitoral, cujo relator sorteado foi o presidente da corte. A defesa do ex-presidente informou que ele não autorizou nem tinha conhecimento da produção do conteúdo, embora não se oponha a ele. Aliados do candidato avaliam que o Supremo poderá rever eventual decisão favorável da Justiça Eleitoral. Em entrevista de 2 de agosto, o senador afirmou que aceitará o resultado das urnas e admitiu ter se expressado de forma errada ao dizer que a empresa citada forneceu urnas ao Brasil, o que a Justiça Eleitoral nega em nota pública.
Ainda não se sabe como o Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo decidirão sobre o uso da ferramenta de inteligência artificial na propaganda, se o centrão migrará para a candidatura em um eventual segundo turno, como projeta o PL, nem qual será o efeito da chapa pura sobre a intenção de voto. Também não há definição pública sobre o desfecho do impasse diplomático em torno de observadores internacionais nas eleições de outubro.