A oficialização da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência pelo Partido Liberal, no fim de julho de 2026, colocou a campanha em duas frentes ao mesmo tempo: uma batalha jurídica sobre um vídeo gerado por inteligência artificial e um debate mais amplo sobre os rumos da direita brasileira. Na convenção que confirmou o nome do senador, o partido exibiu um vídeo em que o ex-presidente Jair Bolsonaro, recriado por inteligência artificial, declara apoio ao filho. O PT foi ao Tribunal Superior Eleitoral, e o ministro Kassio Nunes Marques foi sorteado relator da ação. No Supremo Tribunal Federal, o ministro Alexandre de Moraes deu 48 horas para a defesa informar se Bolsonaro havia autorizado o material, que poderia ser enquadrado como deep fake, prática vedada pela legislação eleitoral.
A cobertura de centro relatou os fatos de forma direta: a defesa afirmou que o ex-presidente não autorizou nem tinha conhecimento da produção, em razão das medidas cautelares que lhe foram impostas, mas não se opõe a que familiares produzam o conteúdo. Essa cobertura também registrou a resolução do TSE de 2024, que proíbe áudios e vídeos manipulados digitalmente para favorecer ou prejudicar candidaturas, e a expectativa de que o caso siga da esfera penal para a eleitoral.
Há convergência entre os diferentes ângulos em pontos concretos: o vídeo existiu, foi exibido na convenção, virou alvo de ação no TSE e provocou um despacho de Moraes no STF. Todos reconhecem, ainda, que a candidatura de Flávio se tornou o centro da disputa presidencial e que o uso de inteligência artificial em campanha é terreno jurídico novo.
As divergências aparecem na interpretação. Veículos de esquerda enfatizaram que a candidatura repete o roteiro de 2022, quando dúvidas sobre as urnas foram semeadas antes do voto, e a leram como parte de uma articulação da ultradireita internacional alinhada a Donald Trump, citando a presença de Javier Milei na convenção, a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e o protagonismo de Marco Rubio. Nessa leitura, a reunião de Flávio com diplomatas estrangeiros, a menção à empresa Smartmatic e o pedido de observadores internacionais indicam tentativa de deslegitimar o processo eleitoral, com o 8 de janeiro de 2023 evocado como precedente de risco.
Veículos e vozes de direita, refletidos no entorno do senador, enfatizaram outro ângulo: o de que o STF vem atropelando o TSE e atuando como instância revisora da Justiça Eleitoral. Para esse campo, o uso de inteligência artificial não configura deep fake quando o conteúdo não é falso nem prejudica a imagem retratada, e a discussão sobre a segurança das urnas seria pauta legítima de transparência, não ataque ao sistema. Há, nesse grupo, o receio de que Moraes se antecipe e adote medida contra Flávio mesmo sem competência eleitoral.
O que ainda não se sabe é como o caso caminhará. Não está definido se Moraes remeterá a questão ao TSE, considerado o caminho natural pelos aliados, ou se agirá antes; Nunes Marques só deve despachar sobre a ação na semana seguinte, com posterior análise pelo plenário. Também permanece em aberto o desfecho do impasse diplomático em torno da vinda de enviados dos Estados Unidos e o efeito prático de tudo isso sobre a corrida de outubro.