A Polícia Federal tentou evitar que a nova investigação sobre um filho do presidente Lula caísse automaticamente sob a relatoria do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, mas o sorteio eletrônico acabou devolvendo o caso ao mesmo gabinete. O inquérito apura suspeita de tráfico de influência e corrupção no suposto favorecimento do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, com desdobramentos que envolvem acessos ao gabinete presidencial e uma empresa do setor de cannabis medicinal.
A cronologia é convergente em toda a cobertura. Em 24 de julho, ao encaminhar o pedido de abertura do inquérito, a Polícia Federal sustentou que a apuração tratava de fatos distintos dos investigados na Operação Sem Desconto, que revelou descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas. Por esse argumento, o caso não deveria ir por prevenção ao gabinete de Mendonça, relator dos inquéritos do INSS. O pedido chegou ao Supremo durante o recesso do Judiciário, no plantão do ministro Alexandre de Moraes na presidência da Corte. Antes de decidir, Moraes pediu manifestação da Procuradoria-Geral da República. Em 27 de julho, a PGR concordou com a leitura da Polícia Federal e defendeu a livre distribuição. Determinado o sorteio, o sistema eletrônico apontou justamente André Mendonça, que na sequência autorizou a abertura da investigação.
A cobertura de centro concentrou-se nessa mecânica processual e fez questão de registrar um contrapeso: em nenhum momento a Polícia Federal ou a Procuradoria-Geral da República afirmaram que Mendonça estivesse impedido de atuar. A discussão se limitou a saber se havia conexão suficiente entre os processos para justificar a prevenção, instituto que mantém investigações relacionadas com o mesmo relator. As mesmas reportagens relatam que integrantes do tribunal enxergaram no movimento uma tentativa de afastar o ministro da relatoria, e que o episódio aprofundou o desgaste entre o gabinete e a corporação, atrito que já vinha se acumulando nas apurações sobre o INSS e o Banco Master. Uma coluna de bastidores acrescentou que ministros avaliam como prudente a conduta de Mendonça justamente por decidir com base em pedidos da PF e da PGR, postura vista como proteção contra acusações de uso político do processo às vésperas da campanha eleitoral.
Veículos de direita deram outro peso ao mesmo fato. O ângulo escolhido foi o da suspeição sobre a conduta da Polícia Federal, apresentada como tentativa deliberada de driblar o relator mais rigoroso quando o investigado é o filho do presidente, com manchete de alarme e apoio na avaliação de uma colunista. Nesse enquadramento, o sorteio que devolveu o caso a Mendonça aparece como ironia que frustra a manobra, e o que está em jogo é a igualdade de tratamento entre o entorno do poder e qualquer outro cidadão. Essa cobertura, porém, omite que o parecer pela livre distribuição foi da própria Procuradoria-Geral da República e que ninguém alegou impedimento do ministro.
Veículos de esquerda praticamente não registraram o episódio, e a ausência é ela própria um dado do caso: fica de fora da narrativa dominante o ângulo da fase inicial da apuração, sem acusação formalizada, e o argumento da defesa, que classificou a investigação como tentativa de encontrar crime sem prova prévia. Um dos textos do conjunto lembra ainda a declaração do presidente de que o filho não tem direito de errar e não terá tratamento diferenciado.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há detalhamento público sobre quais teriam sido os acessos indevidos ao gabinete presidencial, nem sobre que decisões do governo teriam sido influenciadas. A Polícia Federal não respondeu publicamente à leitura de que teria tentado escolher o relator, e não há prazo divulgado para a conclusão do inquérito. A própria identificação do investigado varia entre as matérias: parte da cobertura aponta Fábio Luís Lula da Silva e outra parte cita Luís Cláudio Lula da Silva, divergência que segue sem esclarecimento.