Termina nesta quinta-feira o prazo de 90 dias da prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, e a continuidade do benefício depende de uma nova avaliação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Foi Moraes quem autorizou o ex-presidente a deixar o Complexo Penitenciário da Papuda por razões de saúde, e será dele, exclusivamente, a palavra final sobre a renovação. No entorno de Bolsonaro, a aposta predominante é de que o regime domiciliar seja mantido.
A cobertura de centro relatou que, nos bastidores, o cenário político ao redor do ex-presidente mudou de forma significativa desde a concessão da medida, e o nome no centro dessa mudança é o da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Segundo o repórter Gabriel Sabóia, do Radar, citado pelas matérias, a saída de Bolsonaro da prisão ocorreu após uma articulação política conduzida por aliados do PL, com participação central de Michelle, que chegou a ter uma audiência reservada com o ministro para defender a mudança de regime. Agora, o pedido de renovação está sendo conduzido apenas pelos advogados, sem a mesma mobilização política de três meses atrás.
Os relatos convergem sobre a razão do afastamento. Com a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro consolidada como a aposta da família para 2026, Michelle, que já foi cogitada como candidata ou vice, passou a manter distância das atividades partidárias. A justificativa que ela apresenta aos aliados é a dedicação à saúde do marido e às questões familiares surgidas no período de prisão. Ainda assim, integrantes do PL percebem a redução de sua participação. O cientista político Rafael Cortez, ouvido pelas reportagens, avaliou que essa eventual perda de protagonismo não retira a força política de Bolsonaro junto ao eleitorado conservador, mas apontou uma confusão crescente entre a dinâmica familiar e a coesão política do grupo, o que pode pesar sobre a campanha de Flávio, sobretudo na busca por votos femininos.
É na leitura desse pano de fundo que as ênfases se separam. Veículos de direita destacaram que Bolsonaro cumpriu as determinações do Supremo durante o período domiciliar e que um retorno à Papuda tão perto da eleição reacenderia a narrativa de perseguição judicial, reforçando a expectativa de manutenção do benefício; nesse enquadramento, Flávio aparece reforçando publicamente o vínculo com o pai para transmitir unidade ao eleitorado. Uma leitura à esquerda, por outro lado, tenderia a enfatizar que a própria reportagem admite que a domiciliar veio de uma articulação política, e não apenas de critérios técnicos, e que o cálculo em torno da decisão é abertamente eleitoral, expondo a instrumentalização da Justiça e a sobreposição entre interesses de uma família e um projeto de poder. Episódios como a apreensão de uma arma registrada em nome do ex-presidente durante uma blitz em Brasília são lidos pelos aliados como ruído superado, mas servem de munição para os críticos questionarem o cumprimento das condições.
O que ainda não se sabe é o desfecho: nenhuma das fontes antecipa como Moraes decidirá, e os relatórios médicos que embasam o pedido não foram detalhados. Também permanece em aberto o real peso eleitoral do afastamento de Michelle e se a candidatura de Flávio conseguirá costurar a unidade que, segundo os analistas, ainda parece perdida no bolsonarismo.