Termina nesta quinta-feira o prazo de 90 dias da prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, e a continuidade do benefício depende de uma nova avaliação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Foi Moraes quem autorizou o ex-presidente a deixar o Complexo Penitenciário da Papuda por razões de saúde, e agora cabe a ele decidir se o regime domiciliar será mantido. Entre os aliados de Bolsonaro, a aposta predominante é de que a medida continue.
Nos bastidores, porém, algo mudou desde que a prisão domiciliar foi concedida, e o nome no centro dessa mudança é o da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Quando o ex-presidente conseguiu deixar a cadeia para cumprir a pena em casa, houve uma articulação política conduzida por aliados do PL, e Michelle teve papel central nela. Segundo o repórter Gabriel Sabóia, do Radar, em participação no programa Ponto de Vista, foi essa mobilização que pavimentou a decisão: "Moraes dá esse voto de confiança depois de uma articulação que parte do PL", afirmou o jornalista. Na época, Michelle participou de uma audiência reservada com o ministro para defender a mudança de regime diante dos problemas de saúde do marido.
Agora o cenário é outro. De acordo com Sabóia, o pedido de renovação da prisão domiciliar está sendo conduzido apenas pelos advogados de Bolsonaro, sem a mesma mobilização política observada três meses atrás. A explicação estaria ligada a um rearranjo dentro do próprio bolsonarismo. Com a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro já consolidada, Michelle, que chegou a ser cogitada como candidata ou até vice em uma chapa ligada ao ex-presidente, passou a se afastar das atividades partidárias. A justificativa que ela tem dado aos aliados é a prioridade à saúde do marido e às questões familiares surgidas com o período de prisão.
A cobertura de centro relatou esse movimento de forma factual, atribuindo as interpretações às fontes ouvidas e apresentando tanto a expectativa de manutenção do benefício quanto os sinais de distanciamento de Michelle. Veículos de direita enfatizaram o ângulo interno do campo bolsonarista, destacando que Michelle prioriza a família e que a candidatura de Flávio busca consolidar a unidade conservadora para enfrentar o projeto de reeleição. Numa leitura à esquerda, o episódio tende a ser lido como evidência de que o tratamento dado ao ex-presidente, retirado da prisão comum por meio de articulação política, contrasta com o de presos comuns, e de que a reorganização da família gira em torno da perpetuação de um projeto de poder.
Para o cientista político Rafael Cortez, o afastamento de Michelle não retira automaticamente a força de Bolsonaro junto ao eleitorado conservador. "Ainda que exista esse movimento, não retira a força política do ex-presidente", disse. Cortez chama atenção, no entanto, para uma característica do bolsonarismo: a linha entre disputa familiar e estratégia política está cada vez mais embaralhada. "Há uma confusão entre a dinâmica familiar e a coesão política desse grupo", afirmou. Segundo ele, essa falta de unidade pode pesar na campanha de Flávio, já que Michelle é vista por muitos aliados como peça-chave para ampliar o alcance eleitoral, sobretudo entre o público feminino. Não por acaso, observa o analista, o próprio Flávio tem reforçado nas redes sociais a ligação com o pai, justamente para projetar a unidade que ainda parece perdida.
Apesar de todo o cenário familiar e político em transformação, os bolsonaristas seguem confiantes de que a prisão domiciliar será renovada. O que ainda não se sabe é qual será a decisão de Moraes, quais critérios jurídicos pesarão na nova avaliação e até que ponto o afastamento de Michelle afetará, de fato, a campanha presidencial de Flávio.