Vício em apostas online leva moradores de periferias a tratamento no SUS
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A chegada de apostadores endividados aos Caps do SUS expõe um custo social que o mercado de apostas transferiu para a rede pública. Quem adoece não é um perfil aleatório: são trabalhadores de periferia com renda próxima ao salário mínimo, bombardeados por publicidade que vende o jogo como complemento de renda em transmissões esportivas e redes sociais. Nessa leitura, tratar o caso como falha de caráter individual esconde a engrenagem que produz o dano, e a resposta passa por regulação da propaganda, financiamento da saúde mental e fortalecimento do próprio SUS, único serviço disponível para quem perdeu tudo.
Moradores de áreas periféricas do Distrito Federal e de cidades do interior de Goiás têm procurado os Centros de Atenção Psicossocial, os Caps, unidades do Sistema Único de Saúde (SUS), por causa de perdas com apostas online.
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Todos os lados reconhecem que a compulsão por apostas online produz endividamento, adoecimento mental e ruptura familiar, e que existe tratamento gratuito nos Caps do SUS. Até o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, que representa parte do mercado, admite a necessidade de prevenção ao jogo problemático e de proteção a pessoas vulneráveis.
Apostadores de baixa renda que perderam casa, emprego e casamento em plataformas de apostas online estão chegando aos Centros de Atenção Psicossocial do SUS. Especialistas descrevem a ludopatia como transtorno de controle dos impulsos e apontam publicidade e vulnerabilidade econômica como agravantes; o setor regulado defende a aposta como entretenimento e cobra o fim das plataformas ilegais.
O crescimento das apostas online no Brasil chegou aos serviços da rede pública de saúde. Moradores de áreas periféricas do Distrito Federal e de cidades do interior de Goiás têm procurado os Centros de Atenção Psicossocial, os Caps, unidades do Sistema Único de Saúde (SUS), depois que o jogo em plataformas digitais passou a comprometer o orçamento familiar, as relações pessoais e a saúde mental. O quadro clínico tem nome: ludopatia, transtorno de controle dos impulsos ligado ao jogo.
Um dos pacientes, identificado como Kaio, de 42 anos, motorista, relata ter perdido R$ 5 mil em poucos minutos numa madrugada, dinheiro emprestado por um amigo justamente para quitar dívidas anteriores de apostas. Para tentar cobrir o rombo, que ultrapassou R$ 200 mil, vendeu o carro financiado, os móveis e a casa da família, avisada dois dias antes da desocupação. Perdeu o casamento, pediu demissão e usou a rescisão para pagar novas dívidas. Hoje toma três remédios por dia e participa de grupos terapêuticos em um Caps do Distrito Federal. Outro paciente, chamado de João, de 32 anos, percorre 30 quilômetros por semana até a unidade, acompanhado pela mãe, que viu os poucos recursos da casa migrarem para sites de apostas. Ricardo, de 26 anos, pedreiro autônomo morador do Sol Nascente, a segunda maior favela do país, calcula ter perdido mais de R$ 100 mil desde 2018 e passou a desligar o celular à noite para evitar recaídas.
A cobertura converge no diagnóstico técnico. A psiquiatra Kátia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que pessoas das classes C e D são as mais atingidas, porque o dinheiro perdido compromete a subsistência da casa, e que o endividamento em cascata agrava depressão, ansiedade e ideação suicida. A psicóloga Claudia Feres, da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, resume o efeito da tecnologia: o apostador passou a ter um cassino na palma da mão, acessível a qualquer hora e sem sair de casa. O tratamento segue a lógica da redução de danos, com equipes multidisciplinares, grupos terapêuticos e participação de familiares. Entre os sinais de alerta citados estão isolamento social, troca da noite pelo dia, irritabilidade e perda da noção do tempo e do dinheiro gastos.
Veículos de esquerda destacaram o eixo estrutural do problema: publicidade que vende a aposta como complemento de renda, vulnerabilidade econômica de quem ganha perto de um salário mínimo e exposição permanente ao jogo durante transmissões esportivas e nas redes sociais, com a conclusão, atribuída às especialistas, de que responsabilizar apenas o indivíduo ignora um problema maior, que exige políticas públicas. A cobertura de centro deu peso à reportagem de campo e ao serviço, detalhando o funcionamento dos Caps, o papel da família na adesão ao tratamento e a posição do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, que afirma representar 75% do mercado brasileiro: a entidade reconhece a importância da prevenção ao jogo problemático e da proteção de pessoas vulneráveis, defende que a aposta seja tratada como entretenimento e não como fonte de renda, cita as regras do mercado regulado, incluindo restrições de publicidade e medidas de proteção a crianças e adolescentes, e cobra o combate às plataformas ilegais. Veículos de direita não cobriram o caso neste recorte; a leitura provável desse campo partiria dos mesmos fatos para enfatizar a responsabilidade individual do apostador, a distinção entre o mercado regulado e as casas clandestinas e a necessidade de a rede pública prestar contas do custo e do resultado desse novo atendimento.
O que ainda não se sabe é a dimensão do fenômeno. Não há, nos relatos, número oficial de atendimentos por ludopatia nos Caps, série histórica que confirme o aumento da procura descrito pelas profissionais, nem avaliação independente sobre o efeito prático das restrições de publicidade adotadas pelo mercado regulado. Também não há posição do Ministério da Saúde sobre protocolo específico para o transtorno, nem estimativa de quanto do orçamento das famílias atingidas migrou para as plataformas.
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