A guerra na Ucrânia voltou ao centro do noticiário internacional nesta semana, com duas leituras bem distintas sobre o momento da Rússia diante das sanções ocidentais. De um lado, o 29º Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, o SPIEF, inaugurado em 3 de junho, reuniu mais de 20 mil pessoas de mais de cem países para assinar acordos comerciais e de investimento. De outro, o presidente russo, Vladimir Putin, acusou a Ucrânia de intensificar ataques à infraestrutura civil do país para desestabilizá-lo, num episódio que ajuda a explicar a alta recente no preço da gasolina em algumas regiões russas.
Veículos de esquerda destacaram o SPIEF como sinal de que a estratégia ocidental de isolar a Rússia fracassou. Nessa leitura, a presença de uma delegação oficial dos Estados Unidos, a primeira em quase dez anos, ainda que voltada ao diálogo cultural, somada à participação de países da Arábia Saudita aos Emirados Árabes Unidos, da Indonésia ao Quirguistão e de nações africanas e latino-americanas, comprovaria que as sanções perderam eficácia. A cobertura dessa vertente valoriza a fala do vice-presidente chinês, Han Zheng, em defesa do multilateralismo e de uma reforma da governança global, e sustenta que a Europa teria perdido cerca de 3 trilhões de euros ao rejeitar o petróleo russo. O enquadramento é explicitamente de opinião e fala em avanço da multipolaridade e em ruptura das amarras do imperialismo, tratando o Ocidente como uma potência em decadência.
A cobertura de centro, factual, descreve o quadro sem aderir a nenhuma das narrativas: o fórum ocorreu enquanto ataques de drones atingiam São Petersburgo e a região de Leningrado, chegando a suspender voos no aeroporto de Pulkovo, e as negociações de alto nível seguiram apesar disso. No plano militar, os ataques às refinarias russas dobraram desde 2023, provocando filas e encarecimento do combustível.
Veículos de direita enfatizaram justamente esse ângulo do conflito armado e suas consequências econômicas internas. A reportagem dá relevo à acusação de Putin de que Kiev mira a infraestrutura civil para desestabilizar a Rússia, ao mesmo tempo em que registra o contraponto ucraniano, segundo o qual o objetivo é enfraquecer o financiamento da guerra russa. O tom é de noticiário factual, sem a celebração da posição de Moscou que marca a vertente de esquerda.
O que separa as coberturas é menos o fato e mais a moldura. Enquanto uma trata a ampla participação no SPIEF como prova do fim do isolamento russo, a outra mantém o foco na guerra e na pressão econômica sobre a população. O que ainda não se sabe, a partir do material disponível, é o real alcance econômico das sanções sobre a Rússia no médio prazo, a dimensão verificável das perdas atribuídas à Europa e os rumos das negociações de paz, que ambas as coberturas mencionam apenas de passagem.