O presidente da Argentina, Javier Milei, transformou uma visita a São Paulo em crise diplomática com o Brasil. No sábado, 25 de julho, durante a convenção do Partido Liberal que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República, o argentino chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “presidiário” e “ladrão”, classificou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes como “lixo careca” e acusou o governo brasileiro de financiar uma campanha contra a Argentina. Em três dias, o episódio produziu convocação de embaixador, retorno de diplomata brasileiro para consultas e uma nota oficial do Itamaraty que classifica o caso como sem precedentes em 203 anos de relação bilateral.
A resposta brasileira correu em duas velocidades. No domingo, o chanceler Mauro Vieira convocou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para transmitir a repulsa do governo, e determinou o retorno do embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, medida reservada a momentos de desgaste diplomático. Já integrantes do primeiro escalão reagiram por conta própria. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou Milei de “palhaço” ao rebater críticas à economia brasileira, e o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, escreveu nas redes sociais que o argentino é uma “caricatura patética” e um “puxa-saco” de Donald Trump. Lula evitou o confronto direto: questionado por jornalistas na segunda-feira, respondeu com ironia, “Quem é esse cara?”, e, segundo interlocutores, orientou que a resposta ficasse a cargo do Itamaraty, para preservar os canais institucionais e os interesses econômicos dos dois países. Na terça-feira, o vice-presidente Geraldo Alckmin falou em intromissão em assuntos internos do Brasil, feita de maneira “absolutamente grosseira”, e lembrou que o país é o maior comprador de produtos argentinos.
A cobertura de centro concentrou-se nessa engenharia de resposta: não houve orientação formal do Planalto sobre como os ministros deveriam reagir, integrantes da diplomacia consideraram excessivas as falas de Durigan e de Boulos, e prevalece no governo a avaliação de que o presidente argentino ganha engajamento quando é confrontado em público. Veículos de direita deram peso à fala institucional do vice-presidente e ao enquadramento diplomático do episódio, sem aderir ao tom de xingamento adotado por parte do governo, e preservaram o conteúdo econômico da crítica do argentino, a tese de que o Brasil caminha para uma crise de dívida por causa de um ajuste fiscal que não foi feito. Na leitura de veículos de esquerda, o eixo é outro: um chefe de Estado estrangeiro usou território brasileiro, em plena campanha eleitoral, para atacar o presidente da República, o Judiciário e as instituições democráticas, no palanque do candidato da direita, o que configura interferência externa na disputa de 2026.
A divergência de fundo está na medida da resposta. Para a diplomacia brasileira, o episódio é infamante e não tem precedente, porque um chefe de Estado estrangeiro atacou em solo nacional o presidente, o Poder Judiciário e o povo brasileiro. Do lado argentino, o chefe da Casa Civil de Milei, Diego Santilli, afirmou que a reação foi desproporcional, pediu que o Brasil não exagerasse e repetiu a acusação de que operadores ligados ao PT atuaram na campanha do peronista Sergio Massa em 2023. Milei voltou a mobilizar essa acusação nas redes sociais na segunda-feira, sem apresentar provas.
Ainda não se sabe se a crise terá efeito concreto sobre o comércio bilateral e sobre o Mercosul, ponto que o vice-presidente evitou responder. Também não estão definidos por quanto tempo o embaixador brasileiro ficará em consultas em Brasília, se o Planalto vai formalizar alguma orientação de conduta aos ministros e se Buenos Aires fará algum gesto de recuo.