Cinco meses depois do início da guerra dos Estados Unidos contra o Irã, o conflito passou a ser medido por três contas que correm em paralelo: o desgaste do arsenal americano, a expansão geográfica dos combates e o preço que o resto do mundo paga na energia e na comida. O governo americano afirma que a guerra custou até agora US$ 37,5 bilhões, a maior parte em munições, e que as forças do país atingiram mais de 13 mil alvos em território iraniano até a entrada em vigor de um frágil cessar-fogo, em abril. No mesmo período, os sistemas de defesa aérea americanos interceptaram mais de 1,7 mil drones e mísseis balísticos lançados pelo Irã.
A cobertura de centro concentrou-se no que esses números significam em capacidade militar. Estimativas de um centro de pesquisa sediado em Washington apontam que mais de mil mísseis Tomahawk foram disparados, e que o estoque só deve voltar ao patamar anterior ao conflito em 2031. Cada unidade das versões mais recentes custa cerca de US$ 2,6 milhões. Na defesa, foram usados até 1.430 interceptadores Patriot, de um estoque estimado em 2.330 unidades antes da guerra, a aproximadamente US$ 4 milhões cada, muitas vezes para derrubar drones iranianos que custam entre US$ 20 mil e US$ 50 mil. O sistema Thaad, mais sofisticado e de estoque já limitado, teria consumido entre 190 e 290 mísseis de um total próximo de 360. Um coronel reformado ouvido nessa cobertura resume o gargalo: fabricar um único míssil leva de um a cinco anos, e não há como acelerar o processo.
Há disputa dentro do próprio governo americano sobre a gravidade do quadro. O presidente negou publicamente qualquer escassez, afirmando que o país tem mais munição do que qualquer outro e mais do que precisa. Poucos dias antes, o secretário de Guerra pedia à comissão de orçamento do Senado mais US$ 87 bilhões para cobrir carências críticas, incluindo equipamentos. Os números exatos de consumo e de estoque remanescente seguem sob sigilo. A mesma cobertura registra que os ataques foram suspensos para permitir negociações e que o presidente teria sido aconselhado a não escalar o conflito justamente para preservar os estoques, num momento em que o planejamento militar americano se preocupa com a possibilidade de uma ação chinesa sobre Taiwan.
Os veículos de esquerda deslocaram o foco do arsenal para as vítimas que não estão no campo de batalha. Para essa leitura, o ataque conduzido por Estados Unidos e Israel encarece combustíveis, trava economias já frágeis e aprofunda a fome em vários países, especialmente no Sul global, expondo a dependência dos sistemas alimentares em relação aos combustíveis fósseis. O choque de preços deixou de ser hipótese: no fim de julho, o barril do tipo Brent subiu quase 8% em uma única sessão e voltou a ser negociado acima de US$ 90, no mesmo dia em que a escalada ganhou novos atores, com a primeira participação da Arábia Saudita em ataque conjunto com os Estados Unidos contra um grupo apoiado pelo Irã no Iraque e com drones atingindo um porto no Egito, onde duas embarcações foram danificadas.
Nenhum veículo de direita integrou esta cobertura, e o argumento habitual desse campo aparece aqui apenas de forma indireta, nas falas oficiais reproduzidas pelas reportagens: a ênfase recai sobre dissuasão e capacidade industrial, com a cúpula realizada ao lado de executivos da indústria de defesa cobrando produção mais rápida e o pedido orçamentário sendo apresentado como reposição de capacidade diante de ameaças de outras potências, e não como expansão de gasto.
O que ainda não se sabe é o essencial. O volume real de munições consumidas e o tamanho do estoque restante permanecem classificados, o que impede verificar tanto a negativa presidencial quanto as estimativas independentes. Não há confirmação sobre a origem dos drones que atingiram o porto egípcio, nem sobre a reação dos governos dos países onde os novos ataques ocorreram. Também não está claro se o cessar-fogo resistirá à ampliação do conflito para Iraque e Egito, qual o cronograma das negociações em curso e se o Congresso americano aprovará os recursos adicionais pedidos pelo Pentágono.