O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, protocolou no dia 1º de julho uma manifestação de 86 páginas ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) pedindo que o governo de Donald Trump suspenda por 180 dias a aplicação de um novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros. No documento, o senador argumenta que a sobretaxa, em vez de pressionar o Palácio do Planalto, fortaleceria politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) às vésperas das eleições presidenciais de outubro de 2026.
No dia seguinte, Lula reagiu publicamente nas redes sociais, classificando a iniciativa como 'mais uma atitude de traidores da Pátria' e acusando a família Bolsonaro de 'entreguismo' por, segundo ele, submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos. O presidente também aproveitou a ocasião para defender o Pix e o Mercosul, afirmando que 'o Brasil é dos brasileiros' e que não haveria espaço para ingerência estrangeira em políticas públicas nacionais.
Toda a cobertura confirma que o pedido de Flávio inclui a suspensão temporária das tarifas, a possibilidade de prorrogação por mais 90 dias caso as negociações avancem, e uma proposta alternativa de sanções pontuais contra autoridades específicas, baseadas na Lei Magnitsky, em vez de tarifas amplas sobre toda a economia brasileira. O senador também citou pesquisas de opinião para sustentar que o tarifaço anterior, de 50%, fortaleceu Lula nas pesquisas em vez de pressionar o governo, e argumentou que aguardar o resultado das eleições de outubro poderia abrir caminho para uma correção da política americana em relação ao Brasil. Uma audiência pública do USTR sobre a investigação da Seção 301 estava marcada para os dias 6 e 7 de julho, com participação confirmada do senador. Paralelamente, uma pesquisa do Paraná Pesquisas mostrou empate técnico entre Lula e Flávio no Rio de Janeiro, com o presidente numericamente à frente no primeiro turno.
A cobertura de centro relatou o episódio de forma factual, reproduzindo lado a lado as falas de Lula e os argumentos de Flávio, sem atribuir intenção a nenhum dos dois. Veículos de esquerda destacaram que a carta expõe subserviência aos interesses americanos e reforçaram a acusação presidencial de que a família Bolsonaro prioriza cálculo eleitoral em detrimento da soberania nacional, lembrando que Eduardo Bolsonaro já havia comemorado publicamente o primeiro tarifaço em 2025. Já veículos de direita enfatizaram que a proposta de Flávio buscava evitar danos concretos a exportadores brasileiros e consumidores americanos, defendendo sanções direcionadas em vez de tarifas amplas, e questionaram se a resposta de Lula não seria também uma forma de explorar politicamente o embate comercial em ano eleitoral, chegando um texto de opinião a equiparar o oportunismo dos dois lados.
O que ainda não se sabe é qual será a decisão final do governo Trump sobre o tarifaço, já que a palavra final cabe ao presidente americano após a consulta ao setor privado prevista na audiência pública. Também não está claro se a proposta de suspensão de Flávio terá algum efeito prático sobre o cronograma da investigação da Seção 301, iniciada em julho de 2025.