Aliados de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, demonstram preocupação com a influência que os irmãos Eduardo e Carlos Bolsonaro poderiam ter em um eventual governo. Até o momento, apenas um veículo, de centro, cobriu o caso, relatando que integrantes do Centrão e do núcleo mais pragmático do PL acreditam que dificilmente a montagem da equipe ocorrerá sem a participação dos dois. Carlos é senador eleito, e Eduardo é deputado cassado.
Segundo a reportagem, Flávio indicou internamente que vai limitar a participação de familiares na gestão. O objetivo, de acordo com auxiliares, é ter o ex-presidente Jair Bolsonaro como principal conselheiro político e reservar um papel mais discreto aos irmãos. Em entrevista à TV Globo, Flávio negou que Eduardo vá assumir o posto de chanceler e disse que nomear o pai, hoje em prisão domiciliar, "não está no radar". Renato Bolsonaro, tio do candidato, afirmou que Jair deve ter participação importante como conselheiro.
O ponto mais sensível é Eduardo. A cobertura relata que ele mantém articulações próprias no exterior e antecipa posições. No início do mês, mencionou a possibilidade de ser chanceler, o que causou temor entre diplomatas, defendeu transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém e pregou uma "faxina" no Itamaraty entre quem considera alinhado ao governo Lula. Na semana passada, encontrou-se com o presidente argentino Javier Milei, em Washington, e afirmou que o ministro Alexandre de Moraes não permaneceria no Supremo Tribunal Federal caso Flávio fosse eleito.
Aliados temem uma diplomacia paralela, com compromissos ou declarações que conflitem com a posição oficial. Para esse grupo, a política externa deveria ficar concentrada no presidente e no chanceler escolhido. Do outro lado, o empresário Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo, afirma que os irmãos têm direito a uma voz grande, porque Jair deu o legado e o nome, e Eduardo idealizou e viabilizou a candidatura. Segundo ele, quem defende o distanciamento é o grupo que preferia Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo.
Há ainda um obstáculo jurídico. Eduardo teve os direitos políticos suspensos após o trânsito em julgado da condenação no Supremo por coação no curso do processo, o que, pela Constituição, o impede de ocupar ministério. O grupo próximo a ele aposta que uma vitória de Flávio mudaria o ambiente político e abriria caminho para reverter a condenação.
A discussão ocorre enquanto Flávio amplia alianças com partidos do Centrão, que querem nomes com experiência administrativa e capacidade de articulação no Congresso em cargos estratégicos. O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, tentou esfriar o debate ao dizer que não é hora de falar de Ministério, e sim de trabalhar para ganhar a eleição.
Como só um veículo tratou do assunto, não há ainda contraponto de veículos de esquerda ou de direita sobre o tema. Eduardo Bolsonaro e a campanha de Flávio não se manifestaram. Não está claro como será a divisão de funções entre os irmãos, quem ocuparia a chefia da diplomacia nem se a condenação de Eduardo poderia ser revertida.