Áudios inéditos que integram uma investigação da segurança pública de Roraima indicam que um grupo de policiais militares era financiado por garimpeiros ilegais que atuam dentro da Terra Indígena Yanomami. Nas gravações, sargentos combinam transferências por Pix, discutem dívidas entre colegas de farda e negociam o valor de uma execução. Três sargentos foram afastados das funções e respondem a Conselhos de Disciplina, procedimento administrativo que pode terminar em expulsão da corporação.
O material faz parte de uma apuração conduzida pelo Departamento de Inteligência, pela secretaria estadual de segurança pública e pela Delegacia-Geral de Homicídios. Segundo a investigação, os militares prestavam suporte logístico e serviços de pistolagem a grupos que disputam o controle das áreas de garimpo em território indígena protegido. O caso veio à tona com o assassinato a tiros de José Roberto Souza da Silva, em maio de 2024, em Boa Vista. Ele havia integrado a quadrilha e passou a colaborar com a polícia como informante.
Toda a cobertura converge nos mesmos elementos centrais. Em uma das conversas, o sargento Starley Vieira da Silva afirma que o patrão já mandou o Pix e cobra a execução do plano; em outra, condiciona a data do crime ao pagamento de empréstimos feitos com colegas de farda. O empresário Lidivan Santos dos Reis, chamado de patrão nas gravações, é apontado como chefe do garimpo e mandante do homicídio. As despesas do grupo, como combustível e manutenção de veículos, sairiam desse financiamento. Em outra passagem, um dos sargentos pergunta quanto caberia a cada um e ouve que o serviço custava 50 mil reais.
O esquema começou a ser desvendado três dias após o crime, quando um dos sargentos foi abordado dirigindo um carro com as mesmas características do veículo usado no homicídio. A extração de dados do celular dele expôs o planejamento da emboscada, incluindo a busca por armas não rastreáveis. As gravações indicam ainda que o grupo usava a estrutura da corporação para acompanhar mandados de prisão contra militares antes que se tornassem públicos.
A cobertura de centro relatou o caso de forma factual e deu espaço à resposta institucional: a corporação afirma que os conselhos garantem ampla defesa, que os policiais seguem afastados e que podem ser expulsos caso se confirmem incompatibilidades para a função. A defesa de um dos sargentos nega participação no assassinato, sustenta que o laudo de balística descartou o uso da arma dele e diz que o conselho é procedimento administrativo padrão, não condenação antecipada. Veículos de esquerda destacaram a dimensão de captura institucional, enfatizando que o dinheiro do garimpo ilegal chegava ao aparato de segurança do Estado, que um dos investigados chegou a trabalhar no monitoramento de câmeras da mesma secretaria que apura o caso e que o pano de fundo é a exploração de terra indígena protegida. Veículos de direita não haviam publicado sobre o episódio até o fechamento desta reportagem, e fica de fora, por ora, o enquadramento de responsabilização individual dos agentes, de cobrança por depuração e supervisão dentro da corporação e da leitura do garimpo como economia criminal armada a ser enfrentada pela segurança pública.
Não está claro se há denúncia criminal formal contra os três sargentos nem qual é a situação processual do empresário apontado como mandante. Também não se sabe quantos outros policiais integravam o grupo, qual o volume total de dinheiro movimentado, se a cadeia de comando é investigada pela falha de controle interno e em quanto tempo os conselhos disciplinares devem terminar. As defesas de dois dos citados não haviam sido localizadas até a publicação.