A Polícia Federal deflagrou na manhã de terça-feira a Operação Miragem, voltada ao Banco Digimais, instituição financeira controlada pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. Mais de cinquenta agentes cumpriram nove mandados de busca e apreensão autorizados pela Justiça Federal em São Paulo. A operação determinou o bloqueio e o sequestro de bens que podem chegar a R$ 670 milhões, além da quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados.
A cobertura de centro relatou que as suspeitas se baseiam em relatórios do Banco Central. O Digimais teria usado mecanismos para aparentar uma situação financeira mais saudável do que a real, com manipulação de resultados contábeis, supervalorização de ativos, operações supostamente ilegais em benefício do próprio banco e possível inserção de informações falsas nos sistemas da autoridade monetária. A história da instituição começa muito antes de Edir: o banco foi fundado em 1981 pela família Renner e operou por décadas como uma casa sólida. Macedo passou a ter participação em 2013, em operação que precisou de autorização por decreto da então presidente Dilma Rousseff, já que o bispo, residente nos Estados Unidos, era considerado investidor estrangeiro. Em 2020, ele assumiu o controle integral, rebatizou a instituição como Digimais e a transformou em banco digital, nomeando lideranças ligadas à Igreja, sem experiência técnica no mercado financeiro.
A partir daí, o banco saiu de uma posição considerada sólida para registrar prejuízo de R$ 740 milhões em 2022. Relatórios de 2024 e 2025 apontaram alta inadimplência e necessidade de aportes recorrentes. No fim de 2025, o próprio Edir fez um aporte de R$ 250 milhões para atender exigências do Banco Central. O balanço de 2025 registrou lucro de R$ 31,3 milhões, mas, segundo a apuração, o resultado só foi possível graças a uma manobra contábil. Há ainda uma conexão direta com o caso do Banco Master: o fundo EXP1 adquiriu carteiras de crédito consignado do banco, mas uma auditoria internacional descobriu que 22 mil contratos, no valor de R$ 500 milhões, eram falsos e sem lastro, com ativos originados pelo próprio Master e por empresas ligadas a Daniel Vorcaro.
É na leitura política do episódio que as coberturas divergem. Veículos de esquerda destacaram que o governo de São Paulo, administrado por Tarcísio de Freitas, do Republicanos, e a prefeitura da capital, de Ricardo Nunes, autorizaram o Digimais a operar empréstimos consignados para servidores e policiais militares, em setembro do ano passado, quando o banco já andava mal das pernas. Para esses veículos, a autorização é mais uma evidência da presença da Igreja Universal na máquina pública paulista e repete o padrão do caso Master, em que governadores fecharam negócios com uma instituição já frágil. A crítica central é de responsabilização política: como o governador e o prefeito explicarão a entrega da margem financeira de seus trabalhadores a um banco em dificuldades, sobretudo porque a instituição pertence ao líder da igreja ligada ao partido do governador. O enquadramento fala em socialização do risco e privatização do lucro.
Veículos de direita, ainda com cobertura mais escassa neste momento, tendem a circunscrever o caso à fraude dentro de uma instituição financeira privada, enfatizando a responsabilidade da gestão e dos controladores do banco, a falta de qualificação técnica das lideranças nomeadas e o papel da fiscalização do Banco Central, com a apuração seguindo o devido processo legal. O Republicanos, partido ligado à Igreja Universal e que hoje está na oposição a Lula, preside a Câmara dos Deputados e tem em Tarcísio seu nome mais expressivo, o que adiciona peso político ao episódio.
O que ainda não se sabe é como Tarcísio, Ricardo Nunes, Edir Macedo e o próprio banco responderão às acusações, qual a extensão final das irregularidades apuradas pela Polícia Federal e quanto dos R$ 670 milhões em bens será efetivamente recuperado. Também permanece em aberto se a investigação avançará sobre as decisões administrativas que autorizaram o consignado para servidores públicos.