A distribuição de R$ 131,5 milhões do fundo eleitoral entre as candidaturas do PSOL para as eleições de 2026 abriu uma crise pública no partido. O estopim foi uma manifestação da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), que acusou a direção nacional de descumprir acordos firmados internamente e de praticamente inviabilizar as candidaturas de seus aliados. A repercussão cresceu quando o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), saiu em defesa da correligionária e afirmou que ela 'tem muita razão', acrescentando que 'acordo se cumpre'.
A cobertura de centro relatou os números com precisão. O PSOL terá R$ 131,5 milhões do fundo eleitoral em 2026, um aumento de 31,4% em relação a 2022, o que coloca a sigla na 12ª posição entre os partidos com mais recursos, atrás de PL, PT e União Brasil. Um dia após a queixa de Erika, o partido informou que prevê R$ 2,3 milhões para a reeleição dela, valor superior aos R$ 2,2 milhões destinados a outros deputados que disputam novo mandato e 61,5% maior do que ela recebeu na eleição passada. Os veículos de centro também explicaram o pano de fundo institucional: o objetivo central do partido é superar a cláusula de barreira, que em 2026 exige ao menos 2,5% dos votos válidos para a Câmara em nove estados ou a eleição de pelo menos 13 deputados federais em nove estados.
O racha não é novo. Reportagens detalharam que a disputa se acentuou em março, quando o grupo liderado por Erika e Boulos foi derrotado na tentativa de aprovar uma federação com o PT. Mesmo assim, a corrente da deputada decidiu permanecer no PSOL, segundo ela, sob a promessa de apoio para o pleito. A proposta de partilha em circulação reserva cerca de R$ 2 milhões a candidaturas consideradas prioritárias, como Natália Boulos, Renato Roseno, Guilherme Cortez e Juliano Medeiros, enquanto Manuela d'Ávila, recém-filiada e pré-candidata ao Senado pelo Rio Grande do Sul, apareceria com cerca de R$ 5 milhões.
Veículos de esquerda destacaram a dimensão de representatividade levantada por Erika. A deputada, apontada como a maior puxadora de votos do partido, afirmou que ter a mesma prioridade orçamentária de nomes sem mandato ou recém-chegados é 'o privilégio branco e cis sobrepondo tudo'. Sustentou ainda que percorrer São Paulo como liderança exige logística e um forte esquema de segurança, e que ela e seu grupo 'correm riscos que a burocracia do partido não pode simplesmente ignorar'. Nessa leitura, a divisão de recursos ameaça quem está na linha de frente em defesa de pautas de minorias. A própria direção respondeu nesse registro, afirmando que o PSOL é pioneiro no incentivo financeiro a candidaturas de mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTs e PCDs, e que essa é uma política consolidada.
Veículos de direita enfatizaram outro ângulo: trata-se de uma disputa por dinheiro público entre correntes de um partido de esquerda. Nessa cobertura, ganha relevo o fato de que Erika já receberá o maior valor entre os deputados em reeleição e, ainda assim, reivindica tratamento diferenciado, enquanto uma filiada recente despontaria com a maior fatia. Reportagens registraram também a leitura de adversários internos, para quem a manifestação pública teria objetivos de bastidor: barganhar mais verba e, eventualmente, abrir caminho para uma saída do partido sem perder o mandato por infidelidade partidária, hipótese permitida em situações específicas pela legislação.
A direção nacional rebateu as acusações de quebra de acordo, afirmando que a distribuição segue critérios políticos definidos pela legenda e que o desenho da partilha busca ampliar a representação e derrotar a extrema-direita em outubro. O presidente da federação PSOL-Rede, Juliano Medeiros, disse que debater nas redes não seria a melhor forma de resolver o impasse.
O que ainda não se sabe é o desfecho da divisão. A Executiva Nacional do PSOL deve bater o martelo sobre a partilha em reunião marcada para 18 de julho, e há sinais de incerteza quanto ao formato da votação. Os tetos de gastos por candidatura dependem ainda do Tribunal Superior Eleitoral, que tem até 20 de julho para oficializar os valores. Também permanece em aberto se a corrente de Erika manterá a estratégia dentro do partido ou ajustará seus planos para 2026.