A Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) revisou para US$ 94 bilhões sua projeção de superávit comercial em 2026, alta de 38% sobre os US$ 68,166 bilhões apurados em 2025. A revisão chega em um ano marcado pelas tarifas adicionais impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos brasileiros, e convive com dois outros movimentos que mexem com a conta externa do país: a expectativa de crescimento nas exportações de etanol e a escalada dos juros de longo prazo nos Estados Unidos.
Os dados de comércio exterior aparecem de forma convergente nas três frentes de cobertura. No primeiro semestre, as exportações brasileiras cresceram 11,5% e as importações avançaram 5,1%, resultando em superávit de US$ 42,36 bilhões, 40,3% acima do mesmo período de 2025. Em junho, as vendas externas somaram US$ 36,28 bilhões, recorde para qualquer mês da série histórica, impulsionadas pela indústria extrativa, que registrou alta de 58,4% nas exportações. A soja pode superar US$ 50 bilhões pela primeira vez. Até a quarta semana de julho, o acumulado exportado chegava a US$ 212,36 bilhões, alta de 11,2% no ano.
O efeito das tarifas também é reconhecido em todos os relatos. As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 12,2% entre janeiro e julho, para US$ 21 bilhões, segundo levantamento da Amcham, com retração de 31,5% nos produtos submetidos às sobretaxas mais elevadas. Ao mesmo tempo, as vendas totais do Brasil para o mundo cresceram 10,5%: a Ásia passou de 42,7% para 46,3% do destino das exportações entre os primeiros semestres de 2025 e 2026, e a China, isoladamente, subiu de 28,9% para 31,6%.
No agronegócio, a consultoria Argus projeta embarques de 1,535 bilhão de litros de etanol na safra 2026/27, alta de cerca de 20% sobre 1,28 bilhão de litros da safra anterior. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima produção de 40,68 bilhões de litros, maior volume em 21 anos, puxada pelo etanol de milho. A janela de competitividade que favoreceu o produto brasileiro abriu em meados de julho e já se encerrou, e ainda faltam cerca de 1,18 bilhão de litros a embarcar entre agosto de 2026 e março de 2027. No mercado interno, o etanol hidratado negociado em São Paulo caiu a R$ 2.513 por mil litros em 28 de julho e voltou a R$ 2.743 em 13 de agosto, o que reduz o espaço para vendas externas.
O terceiro eixo é o custo do dinheiro. Os títulos de 30 anos do Tesouro dos Estados Unidos pagaram 5,34%, rendimento não visto desde 2007, com dívida americana de US$ 39 trilhões, cerca de 124% do PIB, e déficit público estimado em US$ 1,85 trilhão no ano fiscal. Como as taxas americanas são a base sobre a qual se somam os prêmios de risco dos papéis soberanos brasileiros, as captações externas de governo e empresas do país ficam mais caras e o fluxo de divisas tende a diminuir, com pressão sobre o real.
As divergências aparecem na leitura desses mesmos números. Veículos de esquerda destacaram o que chamam de paradoxo do tarifaço: ao tentar pressionar o Brasil, a política comercial de Washington teria acelerado a diversificação de parceiros que o país já buscava, reduzindo a dependência de um único comprador; a ressalva desse enquadramento é que superávit de commodities não é desenvolvimento automático enquanto não virar produção industrial, investimento e emprego. A cobertura de centro tratou o tema em chave técnica e setorial, descrevendo produção recorde, arbitragem de mercados e o efeito do preço doméstico sobre a decisão de exportar, sem atribuir vitória ou derrota política. Veículos de direita enfatizaram o risco embutido no cenário externo: o endividamento americano, acelerado por corte de impostos, encareceu o financiamento global, e a resposta brasileira passaria por disciplina fiscal e previsibilidade, e não por retaliação comercial.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há detalhamento setorial de quantos empregos e quanta produção industrial foram perdidos nas cadeias mais sobretaxadas, nem estimativa oficial de quando e como os Estados Unidos ressarcirão as tarifas consideradas ilegais pela Suprema Corte americana, uma vez que novas cobranças com base na seção 301 começaram em julho. Também não está definido se o Federal Reserve elevará os juros até o fim do ano, o que determinaria o custo real da dívida brasileira em 2027, nem se novos mercados para o etanol, como aviação e transporte marítimo, sairão do papel a tempo de absorver a produção recorde.