O primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026, realizado na noite de domingo, 23 de agosto, em um estúdio na cidade de São Paulo, teve como imagem mais comentada não uma proposta de governo, mas um cochilo. Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e candidato a vice na chapa de Ronaldo Caiado, foi flagrado dormindo na plateia em diferentes momentos da transmissão, inclusive enquanto o próprio companheiro de chapa discursava. O vídeo passou de um milhão de visualizações na rede social X e virou o assunto mais comentado da manhã seguinte.
Na manhã de segunda-feira, 24 de agosto, Caiado transformou o episódio em peça de campanha. “Comigo na presidência, você vai dormir tranquilo igual ao Kassab no debate”, escreveu o ex-governador de Goiás em sua conta na mesma rede social. A publicação se somou a uma enxurrada de memes feitos por internautas com as imagens do vice.
O encontro foi esvaziado. Dos seis presidenciáveis convidados, apenas três subiram ao palco: Ronaldo Caiado, do PSD, Renan Santos, do Missão, e Augusto Cury, do Avante. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tenta a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro haviam avisado durante a semana que não participariam. O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema desistiu na manhã do próprio domingo. Os púlpitos dos três ausentes permaneceram vazios no cenário e foram alvo dos participantes desde o primeiro bloco. Lula concedeu entrevista a outra emissora no mesmo horário da transmissão, em que falou da relação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, do andamento das pautas do governo no Congresso e de promessas de campanha. Flávio Bolsonaro publicou vídeo nas redes dizendo que só o confronto direto com o petista lhe interessava e que, sem ele, não havia motivo para comparecer.
O conteúdo do debate, esse ponto todos os lados registraram, girou em torno de segurança pública, situação fiscal, educação, violência contra a mulher, relação do Brasil com os Estados Unidos e o fim da escala 6x1. Renan Santos propôs decretar estado de defesa, usar operações de Garantia da Lei e da Ordem em áreas dominadas pelo crime organizado e construir superpresídios com 300 mil a 500 mil vagas, além de admitir intervenção federal em estados que não enfrentassem as facções. Caiado, questionado sobre dívida pública e juros, defendeu um “choque de credibilidade”, contenção de despesas e inflação na faixa de 3% a 4%. Cury afirmou que a educação brasileira “enfrenta o caos” e defendeu mudanças no ambiente escolar, incluindo maior inclusão de estudantes neurodivergentes. Antes do início, integrantes da Unidade Popular protestaram contra a ausência da candidata Samara Martins no evento.
A cobertura de centro tratou o caso pelo ângulo do registro: descreveu o cochilo, reproduziu a frase de Caiado, listou quem faltou e detalhou bloco a bloco o que cada candidato presente disse, com paridade de espaço entre os três. Veículos de direita deram peso maior ao esvaziamento como escolha política dos líderes nas pesquisas e abriram espaço para a chapa do PSD responder à percepção de que Caiado teria dirigido mais críticas a Lula do que a Flávio Bolsonaro. Nessa cobertura, Kassab afirmou que o tom decorreu das perguntas feitas pelos jornalistas e adversários, e que o candidato critica “quer a um, quer a outro”, conforme o assunto se vincule a cada um. Veículos de esquerda não integram o conjunto de fontes reunido até aqui, e o ângulo que essa cobertura costuma priorizar, como o efeito social das propostas de encarceramento e de corte de despesas apresentadas no palco, ficou sem representação no noticiário disponível.
O que ainda não se sabe é se Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema participarão dos próximos debates da campanha, nem que efeito o episódio terá sobre a candidatura própria do PSD. Kassab não deu explicação pública sobre o cochilo, e nenhuma das reportagens mede o impacto do caso sobre a intenção de voto. Também segue em aberto se a discussão programática do encontro, ofuscada pela viralização, será retomada nos confrontos seguintes.