A ausência dos candidatos mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de voto começa a se firmar como marca da eleição presidencial de 2026. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, avisou que não pretende participar de debates que, segundo ele, sirvam apenas para “ouvir bobagem”. O senador Flávio Bolsonaro, do PL, principal adversário nas pesquisas, condicionou sua presença à do petista. Com os dois fora, o primeiro debate presidencial televisionado ficou com Augusto Cury, do Avante, Renan Santos, do Missão, Ronaldo Caiado, do PSD, e Romeu Zema, do Novo.
O movimento não se limitou à disputa nacional. Na primeira rodada de debates estaduais, Sergio Moro desistiu de última hora do encontro no Paraná, e Eduardo Paes, no Rio de Janeiro, Roberto Cidade, no Amazonas, e Daniel Vilela, em Goiás, também não compareceram.
A cobertura de centro relatou a outra frente da campanha, travada longe dos estúdios. Das oito lideranças religiosas procuradas por uma reportagem de apuração própria, apenas duas declararam apoio explícito a algum candidato. O pastor Silas Malafaia publicou vídeo em 16 de agosto afirmando que votará em Flávio Bolsonaro, a quem descreveu como candidato novo que aprendeu com o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Do outro lado, o pastor Henrique Vieira, candidato a deputado federal pelo Psol no Rio de Janeiro, publicou foto ao lado do presidente em defesa do governo e da soberania. Outros nomes de grande alcance nas redes, como Valdemiro Santiago, José Wellington Bezerra da Costa e André Valadão, receberam o senador em cultos e cerimônias sem declarar voto; a equipe de Valadão informou que não vai se posicionar. A Frente Evangélica pelo Estado de Direito, liderada pelo pastor Ariovaldo Ramos, marcou reunião para decidir se declara apoio a algum candidato.
O peso do segmento explica a disputa. Dados do Censo Demográfico do IBGE mostram que a proporção de evangélicos no país passou de 21,7% da população em 2010 para 26,9% em 2022, e projeções da consultoria Mar Asset Management apontam algo próximo de 35% em 2026. Levantamento do PoderData de 13 de agosto registrou 51% de intenção de voto em Flávio Bolsonaro entre evangélicos, contra 27% em Lula. O presidente já admitiu publicamente que o governo “não sabe falar com os evangélicos” e, no ato de lançamento da campanha à reeleição, em 16 de agosto, no Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, incluiu uma homenagem conduzida por Janja ao lado do cantor e pastor Kleber Lucas.
Os dois enquadramentos convergem num ponto: os líderes das pesquisas estão trocando a arena aberta e regulada por ambientes que controlam, seja o culto, seja a rede social. Veículos de direita enfatizaram o cálculo eleitoral por trás disso. A cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos, avalia que quem lidera tem pouca margem para ampliar capital político no debate e muito a perder com um deslize, embora a cadeira vazia vire alvo dos presentes. Rafael Cortez, cientista político e sócio da Tendências Consultoria, fala em custo de oportunidade e associa o fenômeno à transformação digital da comunicação política, em que vídeos e podcasts permitem controlar a mensagem sem passar pela televisão. A mesma leitura aponta o filtro legal como parte do problema: pela Lei das Eleições, o convite é garantido a candidatos de partidos ou federações com pelo menos cinco parlamentares no Congresso, o que deixa nomes de fora da máquina pública sem acesso ao grande público.
Nenhum veículo de esquerda cobriu o episódio até o momento. A leitura provável desse campo, a partir dos mesmos fatos, cobraria o efeito distributivo da escolha: o debate em TV aberta é gratuito e alcança quem não acompanha campanha em plataforma digital, e retirá-lo do calendário penaliza justamente o eleitor indeciso e de menor renda, além de empurrar a disputa para espaços sem contraditório nem tempo igual de fala.
Ainda não se sabe se Lula e Flávio Bolsonaro participarão de algum debate ao longo da campanha, nem se a condição imposta pelo senador será mantida. Também segue em aberto a decisão da Frente Evangélica pelo Estado de Direito sobre declarar apoio, e Valdemiro Santiago e José Wellington Bezerra da Costa não responderam se apoiarão algum candidato. Não há, na cobertura disponível, dados de audiência que meçam o tamanho real do esvaziamento dos debates nem indicação de que as emissoras pretendam mudar formato ou critério de convite.