A pouco mais de um mês do primeiro turno das eleições de 2026, os planos de governo protocolados pelos candidatos à Presidência da República já são públicos e mostram divergências profundas sobre o tamanho do Estado, a regra fiscal e o papel do Supremo Tribunal Federal. Os documentos vão de 7 páginas, no programa de Rui Costa Pimenta (PCO), a 200 páginas, no de Augusto Cury (Avante), que reserva as sete finais à biografia e às premiações do próprio candidato.
A cobertura de centro relatou que o número de páginas não corresponde ao grau de detalhamento técnico. Ronaldo Caiado (PSD) organizou 100 páginas em 26 eixos, cada um com sumário executivo, diagnóstico, indicadores de acompanhamento e ações para os primeiros 100 dias. Renan Santos (Missão) fixou prazos operacionais, como limite de 15 dias para licenciamento ambiental e 48 horas para demolição administrativa. Já Clariana Barão (DC) apresentou 15 páginas com 30 subseções que repetem a mesma frase de objetivo e nenhuma meta numérica, sob a justificativa de que a calibração viria em etapa posterior. Wilson Grassi (Partido Democrata) cita 11 eixos na introdução e detalha 14 no corpo do texto, e deixa a política externa para ser formulada com o Itamaraty depois da eleição.
No eixo econômico, o programa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sustenta a manutenção do arcabouço fiscal aprovado em 2023, a retomada do investimento público pelo Novo PAC, a política industrial da Nova Indústria Brasil, a valorização do salário mínimo com ganho real e a ampliação do Bolsa Família, com aumento de arrecadação por revisão de renúncias tributárias e combate à evasão. Flávio Bolsonaro (PL) propõe um pacote de ajuste que o próprio documento chama de tesouraço, com enxugamento da máquina pública, revisão de gastos obrigatórios e discricionários dos Três Poderes, limite ao crédito subsidiado pelo Tesouro Nacional, redução da carga tributária sobre produção e consumo e corte da alíquota do novo Imposto sobre Valor Agregado. Romeu Zema (Novo) defende choque fiscal, nova reforma da Previdência envolvendo União, estados e municípios, reforma administrativa com corte de ministérios, fim de supersalários e saída diplomática do Brasil do BRICS.
Veículos de direita enfatizaram o capítulo sobre o Judiciário. Nessa leitura, Flávio Bolsonaro dedica seção específica à ideia do Supremo como corte estritamente constitucional, com fim do julgamento criminal originário de autoridades, limitação das decisões monocráticas, quarentena para ministros de Estado indicados à Corte e mudanças no Conselho Nacional de Justiça e no Conselho Nacional do Ministério Público. Zema sugere idade mínima de 60 anos para indicação, retirada de matérias tributárias e criminais da competência do tribunal e criação de corregedoria independente. Augusto Cury propõe transferir a escolha dos ministros do presidente da República para as classes jurídicas. Os analistas ouvidos nessa cobertura tratam o mandato temporário para ministros como demanda popular e descrevem o plano de Lula, que fala em diálogo institucional e respeito à autonomia dos Poderes, como manutenção do que já existe.
Nenhum veículo de esquerda cobriu esse mesmo recorte no material reunido até aqui. Pelos próprios documentos, a leitura provável desse campo enfatizaria a agenda distributiva do programa do PT, com salário mínimo em ganho real, transferência de renda, crédito de bancos públicos e oposição à privatização de Petrobras, Eletrobras e Correios, e trataria o corte de gastos dos adversários como redução de política social, citando o prêmio de R$ 5.000 previsto por Zema para famílias que deixarem o Bolsa Família. Programas à esquerda do PT vão além: Samara Martins (UP) propõe aumento de 100% no salário mínimo, jornada de 30 horas semanais e estatização de Eletrobras, Petrobras e Vale.
O que ainda não se sabe é o custo consolidado das promessas. A cobertura de centro registrou que o programa de Flávio Bolsonaro reúne, ao mesmo tempo, corte de despesa e criação de rede nacional de cuidado para idosos, expansão de creches e pacote de infraestrutura, sem estimativa que confronte o gasto novo com a economia projetada, e sem cálculo de compensação para a perda de arrecadação com a redução de tributos. Também não há prazo nem base parlamentar demonstrada para as mudanças no Supremo, que dependem de emenda constitucional, e o plano de Pablo Marçal (PRTB) ainda não havia sido divulgado no site do Tribunal Superior Eleitoral.