Um relatório do Instituto Vladimir Herzog aponta que 67% das mortes analisadas na primeira fase da Operação Escudo, realizada na Baixada Santista, no litoral de São Paulo, não têm qualquer registro feito pelas câmeras corporais dos policiais militares. Entre as ocorrências sem imagem, 38% envolveram equipamentos desligados, sem bateria ou que nem chegaram a ser utilizados. Para o instituto, a ausência de gravação dificulta a apuração das mortes e a responsabilização de agentes públicos.
Até o momento, apenas um veículo cobriu a divulgação do relatório, e a matéria é predominantemente factual. Ela descreve os números do levantamento, atribui todas as conclusões críticas ao instituto e registra que a Polícia Militar foi procurada, mas não respondeu até a publicação. Não há, por ora, cobertura de veículos de outros campos editoriais para contrastar leituras, então o que segue reproduz o material dessa única apuração.
O documento vai além da falta de imagens. Ele reúne casos em que investigadores apontaram suspeita de manipulação de provas. Um capitão da Polícia Militar foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo sob a acusação de apagar imagens de câmeras de segurança que registrariam uma execução, e a perícia concluiu que os arquivos foram excluídos de forma proposital. O relatório cita ainda a retirada de corpos antes da chegada da perícia, a suspeita de que armas e drogas tenham sido colocadas ao lado das vítimas para sustentar versões de confronto e relatos de policiais que entraram em imóveis sem acionar o equipamento. Segundo o instituto, quando as câmeras estavam ligadas as gravações acabaram contrariando versões apresentadas inicialmente pela polícia, e há áudios em que agentes aparecem comemorando mortes.
As duas operações têm origem na morte de policiais. A Escudo começou em julho de 2023, depois do assassinato do policial da Rota Patrick Bastos Reis durante uma ação no Guarujá. A segunda fase foi deflagrada no começo de 2024, após as mortes dos policiais militares Marcelo Augusto da Silva, Samuel Wesley Cosmo e José Silveira dos Santos. O Governo de São Paulo informou que o foco era localizar os responsáveis por essas mortes e combater o tráfico de drogas e o crime organizado na região. As ações ficaram marcadas pelo alto número de mortes em intervenções policiais e por denúncias de violações de direitos humanos, que levaram a Defensoria Pública de São Paulo e a Conectas Direitos Humanos a acionar a Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
O levantamento também estima o custo das duas operações em cerca de R$ 350 milhões. Desse total, aproximadamente R$ 91,9 milhões foram atribuídos à atuação da Polícia Militar e R$ 28,3 milhões à Polícia Técnico-Científica. O processamento das 958 prisões em flagrante teria gerado cerca de R$ 159,4 milhões, além de outros R$ 41,6 milhões com a permanência dessas pessoas no sistema prisional até junho de 2025. O instituto contrapõe esse investimento em repressão e encarceramento ao relato de famílias de vítimas que dizem ter enfrentado dificuldade para custear enterros, pagar tratamentos de saúde e lidar com a perda da principal fonte de renda.
O que ainda não se sabe é considerável. A cobertura não informa quantas mortes ao todo foram analisadas, nem detalha a metodologia usada para chegar aos percentuais e às estimativas de custo. Também não há informação sobre eventual apuração administrativa dos policiais que operaram com câmeras desligadas, sobre o estágio das investigações criminais em curso ou sobre o andamento da representação na Comissão Interamericana. A versão da Polícia Militar e do governo estadual sobre as falhas no uso do equipamento segue em aberto, e o espaço para resposta continua disponível.