Um relatório anexado a processo criminal aponta que registros do candidato a deputado estadual por São Paulo Emerson Dias Rocha, do Podemos, foram excluídos ou adulterados no sistema da Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo, a Prodesp. Um ofício assinado pelo especialista em informática da Polícia Civil Breno Tadeu Rios de Almeida confirmou manipulação criminosa na rede em pelo menos quatro registros, todos datados de 1999. Emerson está preso preventivamente desde a Operação Cátaros, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo em 20 de agosto, que apura lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital.
No processo, a Prodesp entregou aos investigadores um relatório detalhado de acessos, com data, hora e o nome do funcionário cuja credencial foi usada para visualizar ou alterar o prontuário do então investigado na época em que os dados sumiram. A empresa informou que todas as informações excluídas ou adulteradas foram recuperadas, com uma exceção: um inquérito policial que ainda aguardava cópia do Boletim de Identificação Criminal pelo Instituto de Identificação Ricardo Gumbleton Daunt, órgão da Polícia Civil responsável por emitir atestados de antecedentes.
A cobertura de centro relatou o histórico judicial completo. Emerson Dias Rocha era investigado por um homicídio e uma tentativa de homicídio ocorridos em 8 de novembro de 1998. Segundo denúncia do Ministério Público, duas pessoas voltavam de um aniversário e esperavam em um ponto de ônibus quando uma delas foi atingida pelo carro que ele dirigia em marcha à ré; houve agressão, e, em um segundo encontro momentos depois, ele teria descido do veículo armado e atirado contra os dois. O homem morreu, e a mulher sobreviveu por ter recebido atendimento imediato. A denúncia aponta ainda que um investigador da Polícia Civil, Flávio Marzagão Cassaguerra, coagiu testemunhas a mentirem em favor do acusado, e que Emerson usava o nome falso Felipe de Souza Neves, com o qual obteve porte de arma de fogo. Ele foi condenado em 2008 pela tentativa de homicídio, com pena de quatro anos e quatro meses em regime semiaberto, mas nunca cumpriu a pena: o recurso chegou ao Supremo Tribunal Federal e, em 2020, a Justiça reconheceu a prescrição da pretensão executória. Pelo homicídio, foi absolvido.
A Operação Cátaros cumpriu mandados em 21 endereços, nas cidades de Cotia, São Paulo, Jandira, São Lourenço da Serra e Balneário Camboriú, em Santa Catarina, com apoio de 96 policiais militares e 80 agentes da Polícia Civil. Foram expedidos dois mandados de prisão preventiva, um deles contra o candidato, apontado pelos promotores como responsável pelo esquema de lavagem de dinheiro da facção. A esposa dele, Francisca de Sousa Sá, também é alvo. Três vereadores de Cotia foram atingidos por busca e apreensão: Eduardo Nascimento, Sergio Luiz de Freitas e Yago Bezerra Neres. A Câmara de Cotia afirmou em nota que as diligências ocorreram exclusivamente nos gabinetes dos parlamentares, sem envolver departamentos administrativos. O Podemos Nacional disse acompanhar as investigações e aguardar informações das autoridades para decidir medidas internas, respeitando o direito de defesa.
As coberturas divergem no recorte. A de centro apresentou o caso com o desfecho judicial inteiro, incluindo a absolvição pelo homicídio, a extinção da pena pela prescrição e as notas do partido e da Câmara municipal. Veículos de direita enfatizaram a adulteração dos registros e o histórico criminal do candidato, encerrando o relato do episódio de 1998 antes dos desfechos que favorecem o investigado e sem espaço para a resposta do partido, num enquadramento voltado à falha de controle do Estado sobre seus próprios sistemas e à responsabilização individual do político. Até o momento, nenhum veículo de esquerda cobriu o caso, o que deixa sem registro o ângulo da captura de bases de dados públicas e da coação de testemunhas por um agente da própria polícia.
O que ainda não se sabe é quem operou as credenciais usadas para alterar o prontuário na Prodesp e se houve responsabilização administrativa ou penal desses servidores. Também não há informação sobre o desfecho do inquérito cuja documentação seguia pendente no Instituto de Identificação, sobre eventual impugnação da candidatura à Assembleia Legislativa, nem sobre a linha de defesa de Emerson Dias Rocha, que não se manifestou publicamente até a publicação das reportagens.