O primeiro debate presidencial da eleição de 2026 foi ao ar na noite de domingo, 23 de agosto, com apenas três dos seis candidatos convidados: Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), primeiro e segundo colocados nas pesquisas de intenção de voto, haviam avisado que não participariam. Romeu Zema (Novo) anunciou a desistência no mesmo domingo. O resultado é o menor número de participantes em um debate de estreia desde 1989, quando as emissoras passaram a promover esse tipo de encontro.
A cobertura de centro reconstruiu a série histórica do formato. O menor elenco anterior em um primeiro confronto havia sido de quatro candidatos, registrado em 2002 e em 2010. A única eleição sem debate de primeiro turno desde a redemocratização foi a de 1998, quando Fernando Henrique Cardoso, então presidente e favorito à reeleição, recusou-se a participar alegando concentração na crise econômica internacional. Essa mesma cobertura lembrou que, em 2006, Lula já havia faltado ao primeiro encontro e virou o alvo principal da noite, e que em 2022 o debate inaugural teve seis participantes, com embate direto entre Lula e Jair Bolsonaro.
Veículos de direita concentraram a reportagem em um detalhe de agenda: enquanto os adversários debatiam, uma entrevista gravada com o presidente em Brasília foi exibida por uma emissora concorrente a partir das 20h30. Nessa cobertura, o conteúdo da conversa aparece em primeiro plano, com as apurações da Polícia Federal sobre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente, e a relação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, descrita por Lula como muito civilizada e muito respeitosa. Segundo esse relato, o presidente afirmou que não pretende interferir no trabalho das autoridades e que eventuais irregularidades devem ser apuradas independentemente de quem esteja envolvido.
Os dois enquadramentos convergem nos fatos. A campanha presidencial alegou desigualdade de condições porque a emissora convidou candidatos cuja presença não era assegurada pelas regras eleitorais, e aliados avaliaram que o líder das pesquisas passaria boa parte do programa respondendo a ataques. Flávio Bolsonaro, segundo pessoas próximas, adotou a estratégia de comparecer apenas aos debates em que o presidente estiver. Zema atribuiu a desistência à ausência dos dois favoritos e à mudança de data feita na semana anterior para acomodar a agenda presidencial, num momento em que ele não tem direito a propaganda eleitoral. Caiado disse que não daria marcha a ré nem para trem carregado de dinamite. Renan Santos levou ao estúdio uma fralda com os nomes dos ausentes. Cury chegou a anunciar a desistência na porta do evento, entrou no carro e voltou atrás.
A divergência está na ênfase. A cobertura de centro tratou o episódio como fato institucional, medindo o esvaziamento contra quatro décadas de debates e detalhando a regra atual, que exige do candidato filiação a partido com pelo menos cinco representantes no Congresso. A cobertura de direita tratou o mesmo episódio como escolha estratégica de um incumbente que troca o confronto ao vivo por uma entrevista de pauta controlada, e puxou para o centro da matéria a investigação que envolve o filho do presidente. Nenhum veículo de esquerda cobriu o caso no conjunto analisado, o que deixa sem contraponto a leitura que enfatizaria a inexistência de obrigação legal de comparecimento e o critério de convites adotado pela emissora.
Dois fatos externos pesam no cenário. Em 20 de agosto, o Tribunal Superior Eleitoral decidiu por unanimidade impedir Pablo Marçal (PRTB) de acessar o fundo eleitoral, participar de debates e aparecer no horário eleitoral gratuito enquanto a corte não julgar a validade do registro de sua candidatura. E a pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto mostrou Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 33%, seguidos por Caiado com 5%, Renan Santos com 4%, Zema com 3% e Cury com 2%, de modo que os três presentes somavam 11 pontos.
O que ainda não se sabe é se os favoritos estarão nos próximos encontros, se há calendário fechado com as demais emissoras e qual foi a audiência comparada entre o debate e a entrevista. Também não há resposta pública dos organizadores às críticas ao critério de convite, nem definição sobre quando o Tribunal Superior Eleitoral julgará o registro que hoje mantém Marçal fora da disputa televisiva.