O primeiro debate presidencial das eleições de 2026 foi ao ar na noite de domingo, 23 de agosto, sem os dois candidatos à frente das pesquisas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa a reeleição, decidiu não comparecer. O senador Flávio Bolsonaro (PL) também ficou de fora, e o ex-governador Romeu Zema (Novo) anunciou desistência horas antes do início, atribuindo a saída justamente à ausência do presidente. Restaram no palco Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). No mesmo horário, uma entrevista exclusiva com Lula, gravada pela manhã no Palácio da Alvorada com a jornalista Mariana Godoy, foi exibida em rede nacional a partir das 20h30, meia hora depois do começo do debate.
Os números de audiência do momento em que os dois programas coincidiram alimentaram a discussão do dia seguinte. Às 20h57, na Grande São Paulo, a entrevista registrava 4,28 pontos e o debate, 2,06 pontos, diferença de 108%. Na mesma medição, a entrevista aparecia em terceiro lugar, atrás de duas outras programações com 16,13 e 7,84 pontos, e o debate em quarto. Trata-se de aferição de um minuto específico, não da média consolidada de toda a duração dos programas, ressalva que a própria cobertura fez.
Toda a cobertura converge nos fatos centrais. O encontro havia sido remarcado do dia 16 para o dia 23 e chegou ao ar com o menor quórum desde 1989. O Datafolha divulgado em 21 de agosto apontava Lula com 39% das intenções de voto, Flávio Bolsonaro com 33%, Ronaldo Caiado com 5% e Renan Santos com 4%. Na entrevista, o presidente respondeu sobre as investigações que envolvem seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, afirmou que não atuará como juiz, procurador ou delegado, defendeu a autonomia da Polícia Federal e disse que eventual irregularidade terá de ser respondida. Ele ainda anunciou a intenção de criar um Ministério da Segurança Pública caso o Congresso aprove a PEC da Segurança Pública e classificou como civilizado o diálogo com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No palco do debate, os três presentes trataram de segurança pública, educação, economia, corrupção, relação com os Estados Unidos e o fim da escala 6x1, com Renan Santos defendendo intervenção federal em estados dominados pelo crime organizado, Ronaldo Caiado pedindo redução dos juros e Augusto Cury associando a jornada de trabalho ao adoecimento mental.
A divergência começa no significado do horário coincidente. Veículos de esquerda enquadraram a entrevista pelo conteúdo da resposta sobre a família: a afirmação de que não ameaça ministro nem pune delegado foi contraposta à reunião ministerial de 2020 em que Jair Bolsonaro disse que não deixaria a própria família ser alvo, episódio que precedeu a saída de Sergio Moro do governo. Nessa leitura, o presidente aceita ser investigado e a vantagem de audiência mede o interesse do eleitor pelo candidato líder. Veículos de direita descreveram a mesma cena como troca deliberada de palco: exposição nacional sem réplica de adversários, num momento em que o assunto mais delicado da campanha são as apurações que alcançam o filho do presidente, a lobista Roberta Luchsinger, Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, e o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, citado por transferências recebidas da lobista e justificadas como empréstimos pessoais. A cobertura de centro concentrou-se na mecânica do esvaziamento, reproduzindo a nota da campanha do candidato do Novo, segundo a qual a mudança de data só havia sido aceita sob a expectativa de participação do presidente, e registrando que o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, defende que o senador só vá a debates com o adversário presente.
O que ainda não se sabe é do tamanho da consequência. Não há média consolidada de audiência dos dois programas, apenas o recorte de um minuto. A campanha do presidente não formalizou publicamente a decisão sobre os próximos debates, e não está definido se o senador do PL manterá a condição de só participar quando o adversário comparecer. Também seguem em aberto o rumo e o alcance das investigações citadas na entrevista, sem manifestação registrada das defesas dos envolvidos, e a tramitação da PEC da Segurança Pública, condição declarada para a criação do novo ministério.