O número de candidaturas à Câmara dos Deputados caiu 28% nas eleições gerais de 2026. Dados do Tribunal Superior Eleitoral disponíveis em 21 de agosto registram 7.627 pedidos de registro para deputado federal, contra cerca de 10,6 mil na eleição de 2022. A retração atravessa todo o pleito: somando Presidência, governos estaduais, Senado, Câmara dos Deputados, assembleias legislativas e Câmara Legislativa do Distrito Federal, são 20.506 pedidos, cerca de 8,7 mil a menos que há quatro anos.
Os números ainda são provisórios. O prazo de registro terminou, mas parte das solicitações continua em análise na Justiça Eleitoral, e candidaturas podem mudar por decisão judicial, substituição ou desistência. Pedido apresentado também não significa candidatura apta: cada registro passa por deferimento, indeferimento ou recurso.
A cobertura de centro relatou que a queda é atribuída às minirreformas eleitorais recentes, que endureceram os critérios para criar partidos e condicionaram o acesso ao fundo partidário e à propaganda gratuita de rádio e televisão a um desempenho mínimo nas urnas. Cientista política da Universidade Federal do Rio de Janeiro ouvida nessa cobertura, Mayra Goulart afirma que a cláusula de barreira mudou o cálculo interno das legendas: a candidatura de baixa competitividade deixou de ser inofensiva e passou a ser danosa, o que leva o partido a selecionar mais e a preferir quem já tem mandato e capacidade de destinar emendas parlamentares a municípios. Quase 80% dos deputados federais buscam reeleição em 2026. Essa mesma cobertura registra que o número de partidos na disputa caiu de 32 para 28, resultado da fusão entre PTB e Patriota, que originou o PRD, da incorporação do PROS pelo Solidariedade e da do PSC pelo Podemos, e que a participação feminina subiu proporcionalmente de cerca de 35% para 36,6%, com 2.788 candidatas e 4.840 candidatos.
Veículos de direita enfatizaram o retrato quantitativo da disputa, sem entrar no mérito das reformas. Destacaram a média de 14,87 candidatos por cadeira na Câmara dos Deputados, os 17,5 concorrentes por vaga na Câmara Legislativa do Distrito Federal, os 11.090 registros para as assembleias legislativas, os 314 pedidos para 54 vagas do Senado, em renovação de dois terços das 81 cadeiras, os 195 registros para governos estaduais e as 13 candidaturas à Presidência da República. Nessa leitura ganha relevo o ranking partidário, com PL à frente, 534 pedidos, seguido por Novo, 505, PDT, 470, e Republicanos, 464, acompanhado da ressalva de que esses números são pedidos e não candidatos confirmados.
Até o momento, veículos de esquerda não publicaram cobertura própria do levantamento. O ângulo que esse campo costuma priorizar aparece de forma indireta nos dados já divulgados: o encolhimento da chapa tende a favorecer quem já está no mandato, as mulheres seguem minoria absoluta entre os candidatos e a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PC do B e PV, caiu de 533 para 486 nomes, retração de 8,8%, menor que a média geral, ainda que tenha perdido posição no ranking porque outras legendas cresceram.
Os dois lados que cobriram convergem nos números centrais e no alerta de que os dados podem mudar. Divergem no enquadramento: a cobertura de centro liga a queda às regras eleitorais e à concentração da disputa em nomes estabelecidos, enquanto a cobertura à direita trata o mesmo movimento como fotografia da proporção entre candidatos e vagas, com atenção ao desempenho das siglas. Chama atenção nos dois recortes o salto do Novo, de 221 para 505 candidaturas, alta de cerca de 128%, atribuída pela especialista à necessidade de dispersar votos nominais por muitos estados para alcançar 2,5% dos votos válidos nacionais com pelo menos 1,5% em um terço das unidades da federação, exigência da cláusula de barreira. No extremo oposto, o Agir passou de 373 para 103 candidaturas, queda de 72%.
O que ainda não se sabe é quanto desse quadro vai sobreviver à análise da Justiça Eleitoral: não há informação sobre quantos registros foram deferidos ou indeferidos, nem sobre quantas substituições ocorrerão até a votação. Também não há manifestação dos partidos afetados nem do Tribunal Superior Eleitoral sobre o efeito das reformas, e nenhuma das coberturas mede se a chapa menor vai de fato reduzir a renovação da Câmara dos Deputados.