O governador do Maranhão, Carlos Brandão, do MDB, passou o fim de semana reagindo publicamente a uma investigação da Polícia Federal que o aponta como provável líder de uma organização criminosa. A apuração, supervisionada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, reúne suspeitas de corrupção, desvio de emendas, obstrução da Justiça e alcança o assassinato do servidor João Bosco Sobrinho Pereira de Oliveira, ocorrido em 2022. Segundo a Polícia Federal, o grupo teria continuado a atuar mesmo depois da morte do servidor.
As manifestações do governador vieram logo após o ministro retirar o sigilo de parte dos autos. Na sexta-feira, a defesa divulgou nota contestando a competência do Supremo para conduzir o caso e sustentando que a apuração contra um governador deveria tramitar no Superior Tribunal de Justiça. No sábado, Brandão gravou um vídeo em que negou as acusações. Ele afirmou ter recebido com indignação a acusação de chefiar organização criminosa, disse que soma mais de 35 anos de vida pública sem responder a processo e declarou que passou a ser alvo depois do rompimento entre grupos políticos no estado. Também afirmou que a defesa segue sem acesso à integralidade do inquérito e que apenas três decisões foram tornadas públicas. O ministro respondeu que sua atuação decorre do exercício da jurisdição e citou 37 anos de serviço público como sua principal defesa.
Toda a cobertura converge no essencial. Existe um inquérito em curso, ele mira o governador em exercício, o sigilo foi parcialmente levantado por decisão do Supremo, a defesa questiona o tribunal competente e nada disso equivale a denúncia formal ou condenação. Também é consenso que o pano de fundo é uma ruptura entre grupos que dividiam o poder no Maranhão.
A divergência começa na hierarquia dos fatos. Veículos de direita enfatizaram a alegação de suspeição do relator, lembrando que Flávio Dino foi governador do Maranhão e que apoia a pré-candidatura de Felipe Camarão ao governo estadual, adversário do grupo de Brandão. Nesse enquadramento, o problema central é institucional: um investigado submetido a decisões de quem ele considera adversário político, em um tribunal que não seria o competente. Essa cobertura detalhou ainda elementos patrimoniais da apuração, como o processo administrativo relativo ao pagamento de cerca de 800 mil reais à empresa SH Vigilância.
Já veículos de esquerda deram espaço à íntegra da defesa, com ênfase na negativa do governador, na trajetória sem processos anteriores e na alegação de que a divulgação de decisões foi seletiva enquanto os autos completos permanecem inacessíveis. Essa cobertura registrou também a afirmação de que a Procuradoria-Geral da República se manifestou contra a condução do caso pelo Supremo, mas deixou de fora a caracterização da Polícia Federal sobre a liderança da suposta organização e a resposta do ministro. A cobertura de centro relatou os dois lados na mesma matéria, com a acusação, a contestação de competência e a réplica do relator, e frisou que as conclusões da Polícia Federal ainda não representam condenação.
O que ainda não se sabe é o mais decisivo. Não há definição sobre quem julgará o caso, se o Supremo Tribunal Federal mantém a supervisão ou se o processo desce ao Superior Tribunal de Justiça. Não se conhece o conteúdo da parte do inquérito que segue sob sigilo, nem o teor documental da manifestação atribuída à Procuradoria-Geral da República. Também não há prazo anunciado para eventual denúncia, nem esclarecimento sobre a ligação entre o assassinato de 2022 e o esquema descrito pela investigação.