A agenda econômica da eleição presidencial de 2026 ganhou dois retratos distintos na mesma semana. De um lado, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds) divulgou a edição 2026 da Carta aos Presidenciáveis, com 11 propostas dirigidas aos candidatos ao Planalto. De outro, os planos de governo protocolados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelaram promessas econômicas que vão da recriação de um tributo nos moldes da CPMF à expropriação de bens de bilionários herdeiros de famílias escravocratas.
A cobertura de centro relatou que o documento do Cebds pede foco, estratégia e governança para fortalecer a competitividade e o desenvolvimento sustentável do país. Entre as sugestões do setor privado estão avançar na economia da restauração florestal, ampliar incentivos para a recuperação de solos e impulsionar a reindustrialização com mais biocombustíveis e eletrificação. Marina Grossi, presidente do conselho, afirmou que uma economia neutra em carbono em 2050 exige desvincular o crescimento econômico das emissões de CO2.
Veículos de direita enfatizaram o outro lado da mesa, o dos próprios candidatos, e descreveram um conjunto de propostas que classificaram como inusitadas ou inviáveis diante do déficit fiscal, dos juros altos e do endividamento recorde. Wilson Grassi, do Democrata, propõe um imposto automático sobre lançamentos bancários, com alíquota de 2% em cada ponta, substituindo a contribuição previdenciária patronal sobre a folha, Cofins, CSLL, IOF, IPI, salário-educação, Cide, ITR e as contribuições ao Sistema S, além de elevar a isenção do Imposto de Renda para cinco salários mínimos, hoje equivalentes a R$ 8.105 por mês. Hertz Dias, do PSTU, e Samara Martins, da UP, defendem aumento imediato de 100% no salário mínimo, que passaria de R$ 1.621 para R$ 3.242. Rui Costa Pimenta, do PCO, fala em piso de R$ 7,5 mil. Pablo Marçal, do PRTB, promete manter o melhor salário mínimo da América do Sul. Também aparecem nos programas a suspensão do pagamento da dívida pública com auditoria, a nacionalização de bancos e a reestatização de empresas privatizadas.
Os dois recortes convergem em um ponto central: nenhuma dessas medidas depende apenas da vontade de quem ocupar o Planalto. O empresariado pede coordenação e governança, e a reportagem sobre os planos de governo lembra que mudanças tributárias e orçamentárias desse porte exigem aval do Congresso, quando não emenda à Constituição. O Tesouro Nacional calcula que cada R$ 1 de aumento no salário mínimo amplia em R$ 422 milhões a despesa federal, já descontada a arrecadação previdenciária adicional, porque o piso indexa aposentadorias, Benefício de Prestação Continuada, abono salarial e seguro-desemprego. Para efeito de comparação, as despesas primárias previstas para 2027 somam R$ 2,76 trilhões no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias.
A divergência de cobertura está no que cada recorte trata como o problema. A cobertura de centro organiza a disputa em torno de competitividade e transição climática, com o setor privado no papel de propositor. Os veículos de direita centram a análise na inviabilidade fiscal e jurídica das propostas de partidos de pouca representação no Congresso, tratam a suspensão de pagamentos como calote e lembram que o direito de propriedade e o direito de herança estão protegidos pelo artigo 5º da Constituição e blindados contra emenda pelo artigo 60. Veículos de esquerda não registraram cobertura do caso até o momento, de modo que as propostas de auditoria da dívida, de redução de jornada e de reparação histórica seguem descritas sem a defesa de quem as formulou.
O que ainda não se sabe é considerável. As 11 propostas da carta empresarial não foram apresentadas na íntegra, e não há estimativa de custo, prazo ou fonte de financiamento para as medidas de descarbonização. Também não há informação sobre se os candidatos mais competitivos incorporaram alguma dessas sugestões aos próprios programas, nem resposta dos candidatos citados às objeções orçamentárias e constitucionais levantadas.