O chefe de gabinete da Presidência da Argentina, Manuel Adorni, renunciou no sábado, 27 de junho de 2026, após mais de três meses de pressão por uma investigação judicial de suposto enriquecimento ilícito. Em carta de três páginas publicada na rede social X e dirigida ao presidente Javier Milei, Adorni afirmou sair com 'paz e serenidade' e 'consciência tranquila', negou irregularidades e disse ter sido alvo de 'ataques midiáticos intermináveis'. A renúncia já havia sido anunciada na semana anterior, e o caso se tornou o maior escândalo do governo ultraliberal.
Veículos de direita, como a cobertura de viés econômico-liberal, registraram de forma enxuta os fatos centrais: a Justiça federal analisou viagens ao exterior, aquisições de imóveis e reformas para verificar se havia compatibilidade com a renda declarada do então ministro. Adorni ficou mais exposto após reconhecer que omitiu cerca de 500 mil dólares em suas declarações juradas. Segundo ele, o valor teria origem em investimento em bitcoin, com aplicação de 200 mil dólares e ganhos de outros 300 mil entre 2014 e 2018.
A cobertura de centro reconstruiu a cronologia do desgaste com mais detalhe. A pressão começou em março, quando veio à tona que a esposa de Adorni, Betina Angeletti, havia viajado com a comitiva oficial da Presidência a Nova York sem função oficial. Vieram, então, outras revelações: uma viagem da família às ilhas caribenhas de Aruba, com custo estimado entre 14 mil e 15 mil dólares, e a compra de dois imóveis em 2024 e 2025, uma casa em nome da esposa em um condomínio a 80 quilômetros de Buenos Aires e um apartamento de 230 mil dólares no bairro de Caballito. Os gastos pareciam incompatíveis com o salário do ministro e com sua situação financeira anterior. Uma pesquisa do Centro de Estudos de Opinião Pública apontou que 78% dos argentinos achavam que ele deveria renunciar.
As interpretações divergem sobre o papel de Milei. A cobertura de centro destacou que o presidente sustentou o aliado até o limite: foi ao Congresso acompanhá-lo durante o interrogatório dos legisladores e declarou publicamente, em 7 de maio, que Adorni é 'uma pessoa honesta' e que não iria 'executar uma pessoa inocente só porque ela feriu o ego de jornalistas'. Veículos de direita enfatizaram justamente esse ângulo, lendo a postura de Milei como defesa do princípio da presunção de inocência diante da pressão da imprensa. Já a leitura de esquerda tende a ressaltar a contradição entre o discurso de austeridade do governo, que impôs forte ajuste fiscal à população, e o enriquecimento de seu braço-direito, além da insistência em mantê-lo mesmo com a maioria da população pedindo sua saída.
O desconforto chegou aos próprios aliados nas últimas semanas. No início de maio, Patricia Bullrich, presidente no Senado do partido A Liberdade Avança e ex-ministra da Segurança, sinalizou que Adorni deveria provar 'quanto antes' sua situação. Adorni já havia deixado a função de porta-voz em 19 de junho, quando o governo preferiu substituí-lo para reduzir sua exposição.
O que ainda não se sabe é quem assumirá o cargo. O governo não anunciou substituto até o momento, embora a imprensa argentina cite o ministro do Interior, Diego Santilli, como nome cotado. Também segue em aberto o desfecho da investigação judicial sobre a origem do patrimônio do ex-ministro.