A abertura da Conferência Internacional de AIDS 2026, realizada no Rio de Janeiro, marcou a primeira vez que o encontro mundial sobre HIV acontece na América do Sul. O tema que dominou a cerimônia foi o acesso ao lenacapavir, um antirretroviral injetável aplicado a cada seis meses e com eficácia próxima de 100% na prevenção da infecção pelo HIV. Um grupo de ativistas interrompeu a solenidade de abertura para exigir preços justos para os antirretrovirais e cobrar do Brasil a emissão de licenças compulsórias que permitam a produção de versões genéricas do medicamento.
A cobertura de esquerda destacou a desigualdade no acesso. Embora o laboratório responsável tenha firmado licenças voluntárias que oferecem o remédio por US$ 40 por pessoa ao ano em 120 países, Brasil, Argentina, Peru e México ficaram de fora, mesmo tendo sediado os testes clínicos entre 2021 e 2024. Na América Latina, apenas Bolívia, Honduras, Nicarágua, República Dominicana e Venezuela entraram no acordo; os demais países enfrentam valores que chegam a milhares de dólares por pessoa ao ano. Esses veículos lembraram que o Brasil já recorreu à licença compulsória nos anos 2000 e pressionaram o governo a repetir o mecanismo.
A cobertura de centro enquadrou o encontro como uma celebração de quatro décadas de resposta à epidemia, ressaltando o papel do Sistema Único de Saúde e das políticas públicas de prevenção. Esse enquadramento lembrou que o país conta com 1.399 serviços do SUS que oferecem a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e defendeu que investir em saúde pública é investir em cidadania, com ênfase em ciência, direitos humanos e solidariedade.
Veículos de direita praticamente não deram cobertura ao evento. A leitura habitual desse campo tenderia a enfatizar o respeito à propriedade intelectual das patentes, o custo fiscal de incorporar um medicamento caro à rede pública e o risco jurídico de romper contratos com a indústria farmacêutica, preferindo a negociação de preço à quebra de licença. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou em coletiva de imprensa que não fechou acordo com o laboratório por causa dos preços que classificou como estratosféricos.
O que ainda não se sabe é se o Brasil emitirá a licença compulsória, se haverá um novo entendimento com o laboratório e em que prazo o lenacapavir poderia ser incorporado à rede pública. A América Latina segue como uma das poucas regiões do mundo onde as novas infecções por HIV continuam aumentando.