Os contratos futuros do petróleo Brent, referência para o mercado mundial, romperam a marca de US$ 100 por barril na manhã desta quarta-feira, 9 de setembro de 2026, pela primeira vez desde 24 de julho. O pico registrado foi de US$ 100,19, com recuo em seguida para US$ 99,82. O equivalente americano, o West Texas Intermediate, era negociado perto de US$ 94 por barril. Foi o quarto pregão consecutivo de alta, num movimento que já acumula cerca de 25% desde o início do mês passado.
O gatilho é militar. A Guarda Revolucionária, exército de elite do regime iraniano, anunciou um ataque contra uma base militar dos Estados Unidos na Jordânia e afirmou ter atingido quase 20 navios no Golfo, em retaliação a operações americanas anteriores que destruíram cinco petroleiros iranianos. Na véspera, os houthis, grupo iemenita apoiado pelo Irã, lançaram ataques contra cidades da Arábia Saudita, puxando mais um aliado de Washington para dentro do conflito. O Estreito de Ormuz, rota por onde escoa parte decisiva do petróleo produzido no Oriente Médio, está no centro da disputa.
As coberturas convergem em três pontos: o preço, a causa e a consequência esperada. A cobertura de centro relatou que o barril subiu mais de um dólar já nas primeiras negociações do dia e que o avanço manteve o clima enfraquecido nas bolsas asiáticas, com queda de cerca de 0,3% em Sydney e de 0,6% em Hong Kong, enquanto o iene se valorizava para perto de 153 por dólar, na máxima de quase sete meses. Essa mesma cobertura registrou que os operadores passaram a considerar mais provável um aperto monetário: o Banco Central Europeu deve elevar os juros da zona do euro em 0,25 ponto percentual, o Federal Reserve aparece dividido entre alta e manutenção, e o Banco do Japão é dado como praticamente certo para subir a taxa. Chris Weston, chefe de pesquisa da Pepperstone, afirmou que o Brent virou um dos sinais em tempo real mais claros do humor dos investidores e que US$ 100 passou a parecer um patamar bastante possível.
Veículos de esquerda reproduziram o despacho da agência internacional com ênfase no custo social da conta. Destacaram a avaliação de Kathleen Brooks, analista da XTB, de que o patamar de US$ 100 é um nível psicológico com peso nos mercados e de que, uma vez superado, muitos bancos centrais não terão alternativa senão elevar os juros para controlar a inflação, encarecendo o financiamento de empresas e de pessoas físicas, com impacto sobre a atividade econômica. Nessa leitura, o encadeamento vai do ataque ao preço do combustível, e do preço do combustível ao bolso de quem depende de crédito.
Veículos de direita não aparecem no conjunto de fontes que cobriu este episódio. O enquadramento habitual desse campo, centrado em segurança energética, liberdade de navegação, ampliação da oferta e responsabilização direta do regime iraniano pelo risco imposto ao comércio marítimo, não está representado na cobertura disponível. Esse é o ponto cego da história até aqui.
Ainda não se sabe quanto tempo a escalada vai durar nem se o fluxo pelo Estreito de Ormuz chegará a ser interrompido, o que separaria um choque passageiro de preços de uma restrição real de oferta. Também não há informação sobre a extensão dos danos aos navios atingidos no Golfo, sobre a reação dos países produtores ao novo patamar de preço, nem sobre quanto desse aumento efetivamente chega ao consumidor final. Parte da resposta começa a aparecer no fim desta semana, com a divulgação do índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos e com a decisão de política monetária do Banco Central Europeu.