Michelle Bolsonaro anunciou a saída da presidência do PL Mulher, braço do Partido Liberal voltado à articulação política entre mulheres. A decisão foi comunicada ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, em reunião no fim de junho. Em nota, a ex-primeira-dama afirmou que passará a se dedicar integralmente aos cuidados do marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após condenação no Supremo Tribunal Federal, e da filha menor de idade do casal.
A saída ocorre poucos dias depois de um episódio que expôs divergências dentro da família Bolsonaro. Michelle publicou um vídeo nas redes sociais acusando o enteado, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, de tê-la tratado com desrespeito numa conversa sobre os rumos do partido. O atrito teve origem na disputa por espaço político no Ceará: Michelle defendia a candidatura da vereadora Priscila Costa ao Senado e o apoio ao senador Eduardo Girão, em oposição à aproximação do PL com o ex-governador Ciro Gomes. A posição contrariou os filhos de Bolsonaro, que defendiam a estratégia adotada pela legenda no estado.
A cobertura de centro, como a do Correio Braziliense, tratou o caso de forma factual, ancorada em fontes nomeadas. A deputada Júlia Zanatta classificou a saída como uma perda para o PL Mulher, mas minimizou a crise, afirmando que é natural que Michelle priorize a família neste momento e dizendo ter certeza de que a ex-primeira-dama ainda será candidata ao Senado. Nesse mesmo registro, veículos de centro noticiaram que Flávio Bolsonaro pediu desculpas à madrasta e repudiou publicamente uma fala misógina do aliado Paulo Figueiredo, que dissera que mulheres votam mal.
Veículos de direita, como a Veja, deram uma leitura interpretativa do comunicado, destacando o que chamaram de recado implícito de Michelle: o destaque à palavra integralmente, entre travessões, sugeriria que ela descarta, ao menos por ora, disputar o Senado pelo Distrito Federal. Nesse enquadramento, a ex-primeira-dama aparece como protagonista desgastada pelo tratamento dos enteados na disputa interna, e lideranças femininas do campo saem em sua defesa.
Já veículos de esquerda, a partir de apuração do ICL Notícias reproduzida por outros sites, destacaram uma versão que contradiz o discurso oficial: segundo um interlocutor anônimo, a saída não teria sido escolha pessoal de Michelle, mas uma ordem de Bolsonaro, que estaria irritado com os holofotes voltados para a esposa. Essa cobertura relembra que Michelle foi usada em atos de campanha em 2022 para atrair o voto feminino e evangélico e enfatiza um suposto padrão de controle do ex-presidente sobre a agenda pública dela.
O que ainda não se sabe é qual versão prevalece: se a saída foi decisão própria de Michelle, imposição de Bolsonaro ou desdobramento direto do atrito com os enteados. Também permanece em aberto se ela manterá ou não a candidatura ao Senado e como o PL vai acomodar a disputa por espaço no Ceará às vésperas das eleições de 2026.