O candidato do Partido Social Democrático à Presidência da República, Ronaldo Caiado, colocou nesta semana as suas principais propostas na mesa. Em entrevista televisiva exibida na terça-feira, 25 de agosto, ele disse que enviará ao Congresso Nacional um projeto de anistia a todas as pessoas condenadas por crimes relacionados aos atos de 8 de janeiro de 2023, defendeu a criação de uma força policial formada por países da América do Sul, prometeu uma reforma da Previdência e afirmou que pretende revisitar a reforma tributária já aprovada. Foi o segundo de seis candidatos ouvidos na mesma série de entrevistas.
Aos 76 anos, médico ortopedista e produtor rural, Caiado disputa o Palácio do Planalto pela segunda vez. A primeira foi em 1989, quando terminou em décimo lugar com 488.893 votos e depois apoiou Fernando Collor no segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva. Entre uma candidatura e outra, foram cinco mandatos de deputado federal por Goiás, um mandato de senador a partir de 2014 e dois mandatos de governador, entre 2019 e 2026, ambos vencidos em primeiro turno. Deixou o União Brasil, que optou por não lançar candidato próprio, filiou-se ao Partido Social Democrático em 14 de março e teve a candidatura definida depois da desistência de Ratinho Junior e da perda de força do nome de Eduardo Leite. Gilberto Kassab foi anunciado como vice em 1º de julho, e a chapa saiu oficializada na convenção nacional de 26 de julho.
Esses fatos aparecem sem disputa nas duas linhas de cobertura. A divergência está no tratamento das propostas. A cobertura de centro registrou as falas e acrescentou verificação: ao comparar a anistia que promete com a anulação das condenações de Lula, o candidato equiparou coisas distintas, porque o Supremo Tribunal Federal anulou aqueles processos por entender que a Justiça Federal do Paraná não era o foro competente, e não por perdão. A mesma cobertura anotou que, questionado duas vezes sobre a idade mínima de aposentadoria, Caiado não respondeu e disse que convocaria especialistas para estudar a sustentabilidade do sistema. Também detalhou que, pela proposta da Sulpol, inspirada na Europol, policiais de outros países poderiam entrar em território brasileiro em casos de contrabando, armas, lavagem de dinheiro e drogas, embora ele descarte autorizar operações dos Estados Unidos no país.
Já veículos de direita enquadraram o mesmo material como trajetória e entrega. Descreveram um plano de governo de quatro frentes, com a Lei do Terrorismo Doméstico para enquadrar facções que dominam territórios, maior atuação das Forças Armadas, o plano fiscal batizado de Governo Eficiente e a promessa de segurança jurídica ao agronegócio, ao comércio, à indústria e aos pequenos empreendedores. Apresentaram a anistia, que alcançaria também Jair Bolsonaro, como gesto de pacificação, e usaram como credencial a aprovação de 87% em Goiás medida pela Genial/Quaest no fim do mandato. Essa cobertura foi a que trouxe o bastidor mais áspero: parlamentares do partido relataram que a escolha do nome foi decidida pela cúpula, sem consulta à bancada na Câmara dos Deputados, e leram o movimento como aproximação do campo bolsonarista.
Veículos de esquerda não cobriram o episódio até o momento, e o ângulo que costuma organizar essa cobertura ficou fora do noticiário do dia: o custo institucional de anistiar condenados por uma tentativa de golpe, o efeito da revisão tributária sobre a regressividade do sistema e o que a omissão sobre a idade mínima significa para quem depende do regime público de aposentadoria.
Permanece em aberto o desenho concreto das promessas. O candidato não disse qual idade mínima defende, não apresentou a base jurídica que permitiria a policiais estrangeiros operar em território nacional, não indicou qual alíquota substituiria os 28% estimados para o Imposto sobre Valor Agregado e não detalhou o alcance exato da anistia diante da jurisprudência já firmada pelo Supremo Tribunal Federal. Também não há, no material disponível, resposta do governo federal às críticas dirigidas à reforma tributária.