Um estudo publicado em fevereiro no International Journal of Radiation Oncology, conduzido com apoio da Sociedade Brasileira de Radioterapia, revelou desigualdades profundas no acesso à radioterapia no Brasil. A pesquisa analisou mais de 840 mil procedimentos realizados entre 2017 e 2022 e constatou que a distância média percorrida por um paciente até um centro de tratamento é de 120 quilômetros, mas esse número varia enormemente conforme a região: no Sul e no Sudeste, a média fica entre 71 e 74 quilômetros; no Nordeste, sobe para quase 162 quilômetros; no Centro-Oeste, chega a 239 quilômetros; e no Norte, atinge 442 quilômetros, cerca de seis vezes mais do que no Sul.
Até o momento, apenas o Poder360 cobriu o caso, reproduzindo reportagem originalmente publicada pela Agência Einstein em 7 de julho. Segundo o texto, o problema também tem um recorte racial relevante: pacientes não brancos percorrem, em média, 145,6 quilômetros para tratamento, quase 50% a mais do que pacientes brancos, que percorrem 97,3 quilômetros. A reportagem relata que essa disparidade reflete a concentração histórica de infraestrutura oncológica nas regiões mais desenvolvidas do país, reproduzindo padrões de exclusão social e regional.
A matéria descreve consequências clínicas diretas dessas distâncias: cerca de 60% dos pacientes brasileiros precisam se deslocar para outro município para iniciar a radioterapia, tratamento que exige sessões diárias ao longo de semanas. Esse deslocamento prolongado leva parte dos pacientes a abandonar ou atrasar o tratamento, o que reduz a efetividade clínica, aumenta o risco de recidiva e diminui a sobrevida livre da doença, segundo a rádio-oncologista Ana Carolina de Rezende, do Hospital Israelita Albert Einstein, citada na reportagem.
O texto aponta ainda que o número de equipamentos de radioterapia cresceu de forma apenas modesta diante do aumento de pacientes, e que parte do parque tecnológico tem mais de 20 anos de uso. Procedimentos mais complexos, que dependem de tecnologia avançada concentrada em poucos centros, exigem em média 45 quilômetros a mais de deslocamento do que tratamentos convencionais. Como possível caminho para reduzir essas distâncias sem novos investimentos em infraestrutura, a reportagem cita os protocolos hipofracionados, que reduzem o número de sessões de radioterapia contra o câncer de mama de 25 ou 30 para apenas 5 a 10 aplicações em determinados perfis de pacientes, segundo Fabio Ynoe de Moraes, autor principal do estudo.
O cenário preocupa porque o Inca, o Instituto Nacional de Câncer, projeta crescimento de 10% nos casos de câncer no Brasil até o fim da década, em relação aos números registrados até 2022. Para os pesquisadores citados, o desafio é expandir a capacidade de atendimento de forma sustentável e equitativa, evitando que o avanço tecnológico amplie ainda mais as disparidades regionais já existentes.
O que ainda não está claro, a partir da cobertura disponível até agora, é quais medidas concretas o Ministério da Saúde ou o Inca pretendem adotar para reduzir essas distâncias, qual seria o custo de expandir a rede de centros de radioterapia e se os protocolos hipofracionados já vêm sendo adotados em larga escala pelo SUS.