A Câmara dos Deputados eleita em outubro deve mudar pouco de fisionomia. Levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, o Diap, mostra que 438 dos 513 parlamentares em exercício, ou 85,38% da Casa, registraram candidatura à reeleição. O número ficou apenas oito abaixo do de 2022, quando 446 deputados tentaram renovar o mandato. Com base no histórico de recandidaturas e no índice de sucesso de quem disputa a permanência, que costuma superar 65%, o departamento projeta uma renovação entre 14,61% e 44,44% em 2026, abaixo da média de 49% observada desde 1990. No teto dessa faixa, seria o menor índice desde 1998.
O fator que o Diap coloca em primeiro lugar está no Orçamento. As emendas parlamentares individuais, cuja previsão anual supera R$ 26,6 bilhões em 2026, permitem que o deputado indique o destino de parte dos recursos federais e viabilizam obras e ações em municípios da sua base. O departamento avalia que esse instrumento é um diferencial relevante na disputa, em especial para parlamentares da base de apoio ao governo. Não é a única vantagem listada. Entram também a cota para o exercício da atividade parlamentar, que varia de R$ 30 mil a R$ 44.320,46 por mês, a verba mensal de R$ 111.675,59 para contratar de cinco a 25 secretários, a prioridade na distribuição dos recursos do Fundo Eleitoral e o prestígio institucional, que dá acesso mais fácil aos meios de comunicação.
Os números de contexto reforçam o quadro. Apenas 14 dos 513 deputados não concorrem a nenhum cargo neste ano. Outros 42 disputam o Senado, oito tentam vaga em assembleias legislativas e cinco concorrem ao governo estadual. Na distribuição por unidade da Federação, Paraíba e Rio Grande do Norte têm 100% da bancada em busca de novo mandato, seguidos por Bahia, com 94,87%, São Paulo, com 91,43%, e Piauí, com 90%. Minas Gerais, segunda maior bancada, registra 88,68%. No extremo oposto está Tocantins, onde apenas 37,5% dos deputados disputam a permanência. A série histórica ajuda a calibrar a projeção: em 1998, com 86,35% de recandidaturas, 65,01% dos que tentaram conseguiram voltar e a renovação da Casa ficou em 43,86%; em 2010 e 2014 a taxa de sucesso passou de 70%; em 2022 foi de 65,61%.
A cobertura de centro tratou o levantamento como dado de conjuntura política, destacando a projeção de 44% de renovação como o menor índice desde 1998 e apontando o Orçamento como o mais significativo dos fatores, sem julgar o mecanismo das emendas. Já veículos de esquerda organizaram a reportagem em torno do acúmulo de condições de quem já exerce o mandato, enfileirando emendas, cota parlamentar, verba de gabinete e prioridade no Fundo Eleitoral como um conjunto de recursos públicos que torna a disputa desigual para quem vem de fora. Veículos de direita não haviam publicado sobre o levantamento até o fechamento desta síntese; a leitura provável desse campo partiria dos mesmos números para cobrar transparência e rastreabilidade na execução dos R$ 26,6 bilhões em emendas individuais e para tratar a baixa alternância como enfraquecimento do controle do eleitor sobre o gasto público.
O que ainda não se sabe é o essencial. O próprio Diap ressalva que o número de candidaturas pode mudar até outubro, inclusive porque 14 dos atuais deputados exercem o mandato como suplentes. A projeção também depende de uma condição que só será conhecida na apuração: pela metodologia do departamento, os candidatos à reeleição só deixariam de retornar caso seus partidos ou federações não atingissem ao menos 80% do quociente eleitoral, mínimo para disputar vaga na Casa. Não há, no material divulgado, a abertura de quantos dos 438 candidatos integram a base do governo, nem medição direta do efeito das emendas sobre o desempenho individual nas urnas. A taxa final de renovação só será conhecida depois da votação.