A Polícia Federal deflagrou a Operação Miragem contra o Banco Digimais, instituição controlada pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. Mais de cinquenta policiais federais cumpriram nove mandados de busca e apreensão na Justiça Federal de São Paulo. A apuração, subsidiada por relatórios do Banco Central, aponta que os investigados teriam manipulado demonstrativos contábeis e registros regulatórios para ocultar a real situação financeira do banco e aparentar solvência perante os órgãos de controle.
A cobertura de centro relatou que a Justiça Federal autorizou o bloqueio e o sequestro de bens e valores de até 670 milhões de reais, além do afastamento dos sigilos bancário e fiscal dos investigados. Os alvos poderão responder pelos crimes de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas, previstos na Lei 7.492 de 1986, que define os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. Entre os investigados estariam dirigentes do banco, como o bispo João Urbaneja, homem de confiança de Macedo, e seu filho, Thiago Urbaneja. O próprio Edir Macedo teve a quebra de sigilo pedida, mas não foi alvo de busca por morar no exterior, em Miami.
Há pontos em que toda a cobertura converge. O Banco Digimais, antigo Banco Renner, fundado em 1981 no Rio Grande do Sul, foi reestruturado e assumido integralmente por Macedo em 2020. Em abril, o BTG Pactual confirmou acordo para adquirir a instituição, mas, segundo fontes próximas ao caso, a conclusão do negócio ficou ameaçada porque algumas condições não foram cumpridas. Em nota, o banco afirmou compromisso com a transparência e a conformidade regulatória e disse estar à disposição das autoridades.
As ênfases divergem conforme o veículo. Veículos de esquerda destacaram o ângulo de escândalo financeiro e a teia política em torno do caso, lembrando que o banco teria obtido aval do Banco Central então comandado por Roberto Campos Neto no governo Bolsonaro e associando o episódio à chamada farra financeira da Faria Lima. Essa cobertura também ressaltou a reação da Igreja Universal, que divulgou nota isentando o bispo, afirmando que ele não integra a administração executiva nem participa da gestão operacional, financeira ou contábil da instituição, e acusando parte da imprensa de publicar notícias falsas, tendenciosas e maldosas. De Miami, Macedo respondeu apenas com um versículo bíblico sobre grande ira, sem comentar a investigação.
Uma leitura mais próxima da direita enfatizaria a presunção de inocência e os argumentos da defesa: a sustentação da igreja de que a condução das atividades do banco caberia a executivos legalmente habilitados perante os reguladores, a declaração do Digimais de colaboração com as autoridades e o fato de a apuração ainda estar em curso, sem condenação. Nesse enquadramento, pesa também o questionamento da igreja sobre a cobertura da imprensa.
O que ainda não se sabe é o desfecho da apuração: não há acusação formal definitiva, o grau de responsabilidade individual de cada investigado segue em aberto e o futuro da aquisição pelo BTG Pactual permanece indefinido. Também não há manifestação detalhada da defesa de Edir Macedo além da nota da igreja e da mensagem religiosa publicada nas redes.