O mapa político da América do Sul passou por uma reconfiguração expressiva em 2026. Com a vitória de Keiko Fujimori, do Fuerza Popular, no Peru, e a eleição de Abelardo de la Espriella, dos Defensores de la Patria, na Colômbia, o número de governos de direita no continente subiu para sete. O movimento consolida uma guinada conservadora que vinha se desenhando desde as vitórias de Javier Milei na Argentina, Daniel Noboa no Equador, Rodrigo Paz na Bolívia e José Antonio Kast no Chile.
A cobertura de centro, representada pelo Poder360, enfatizou um contraste numérico importante: apesar do avanço territorial da direita, os governos de esquerda ainda comandam os países responsáveis por 54,6% do Produto Interno Bruto do continente, algo em torno de US$ 2,4 trilhões. Os países governados pela direita somam US$ 2,2 trilhões, ou 45,4% do PIB regional. A esquerda também leva vantagem populacional, com 246,4 milhões de habitantes ante 191,7 milhões. O fator decisivo desse equilíbrio é o Brasil, maior economia da região, com um PIB de US$ 2,28 trilhões em 2025, mais de 230% superior ao da Argentina, a segunda maior.
Veículos de direita tendem a ler o ciclo como uma rejeição clara dos eleitores a gestões de esquerda e como abertura para uma maior integração econômica de mercado, sobretudo no caso de uma alternância no Brasil. O próprio levantamento aponta que, se a direita vencer a eleição presidencial brasileira de outubro, esse espectro passaria a dominar mais de 95% do PIB sul-americano, um salto que reforçaria o alinhamento liberal-conservador na região.
Já os veículos de esquerda, como a CartaCapital, descreveram o fenômeno como um avanço da extrema-direita que altera a correlação de forças em desfavor das agendas progressistas. Essa cobertura destacou que Keiko Fujimori é filha do ex-ditador Alberto Fujimori e que De la Espriella sucederá Gustavo Petro, o primeiro presidente progressista da Colômbia. Pontuou ainda o apoio explícito do governo dos Estados Unidos a candidatos conservadores como De la Espriella, Milei, Paz e Kast, e ligou o quadro regional à disputa brasileira, tratando a eleição de outubro como um ponto de inflexão para a democracia.
Há convergência factual entre os lados sobre o essencial: a direita ampliou seu domínio territorial, mas a esquerda ainda concentra a maior fatia econômica e populacional do continente, ancorada no Brasil. Onde os enquadramentos divergem é no significado atribuído à mudança. A esquerda enfatiza riscos institucionais e o histórico autoritário de algumas das novas lideranças; a direita enfatiza a vontade do eleitorado e os ganhos esperados de uma agenda pró-mercado.
O Peru chega a essa nova fase após anos de turbulência. Desde 2016, o país teve oito presidentes, com quatro destituídos pelo Congresso, dois renunciando antes de processos de afastamento e um cumprindo mandato interino de apenas oito meses. A vantagem de Fujimori sobre o candidato de esquerda Roberto Sánchez só se tornou irreversível após dezessete dias de contagem das urnas.
O que ainda não se sabe é como esse novo arranjo continental afetará a integração regional na prática, qual será o efeito concreto sobre acordos econômicos e diplomáticos, e, sobretudo, o resultado da eleição brasileira de outubro, que pode inclinar de forma decisiva o peso econômico do continente para um dos lados. As próximas definições presidenciais já marcadas são justamente a do Brasil, em outubro de 2026, e a da Argentina, em outubro de 2027.