A dívida pública bruta dos Estados Unidos ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 40 trilhões, de acordo com o balanço diário de caixa e dívida do Departamento do Tesouro. O total em circulação chegou a US$ 40,047 trilhões, dos quais US$ 32,266 trilhões estão em títulos detidos pelo público e US$ 7,782 trilhões correspondem a dívida intragovernamental. O montante mais que dobrou em menos de uma década: era de US$ 19,95 trilhões em janeiro de 2017, quando Donald Trump assumiu a Presidência pela primeira vez, e a passagem de US$ 39 trilhões para US$ 40 trilhões levou menos de cinco meses.
Toda a cobertura converge nos números centrais. Os Estados Unidos precisarão tomar emprestado cerca de US$ 2 trilhões apenas neste ano para honrar suas obrigações, e aproximadamente metade desse déficit corresponde ao pagamento de juros aos investidores que detêm títulos do Tesouro. O rendimento dos papéis de 30 anos superou 5% e atingiu o maior nível em quase duas décadas, o que encarece cada nova rolagem. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou a duplicação do volume de recompra de títulos de 10 a 30 anos, para pelo menos US$ 4 bilhões por operação, na tentativa de conter esse custo. Há também consenso de que a conta não tem dono único: gastos com Previdência Social, Medicare e Medicaid, as respostas à pandemia sob Donald Trump e sob Joe Biden, estímulos econômicos, despesas militares e cortes de impostos empurraram a curva ao longo de décadas.
Veículos de esquerda destacaram o contraste entre o número e a promessa de disciplina orçamentária feita por Donald Trump. Essa cobertura enfatizou que o Departamento de Eficiência Governamental, inicialmente comandado por Elon Musk, prometia economizar US$ 1 trilhão e apresentou pouco mais de US$ 200 bilhões, cifra que o Government Accountability Office considerou pouco confiável e sem transparência suficiente. Também sublinhou que os cortes de impostos aprovados em 2025 pressionam as contas no curto prazo, com custo estimado pelo Joint Committee on Taxation em cerca de US$ 100 bilhões neste ano apenas pela dedução imediata de investimentos das empresas, e que a derrubada de parte das tarifas pela Suprema Corte obrigará o governo a devolver mais de US$ 160 bilhões a quem pagou os impostos de importação.
A cobertura de centro relatou o mesmo episódio pela lente do orçamento e do mercado. Registrou que o custo do serviço da dívida chegou a US$ 1,1 trilhão ao ano, ultrapassou o financiamento do Pentágono no ano fiscal de 2025 e, nos primeiros dez meses do ano fiscal de 2026, superou o gasto com assistência médica do Medicare, tornando-se o segundo maior item do orçamento federal, atrás apenas da Seguridade Social. Deu espaço a Maya MacGuineas, presidente do Comitê para um Orçamento Federal Responsável, para quem a saída passa por aumentar impostos, cortar gastos ou ambos, e ao Escritório de Orçamento do Congresso, que estima em US$ 4,7 trilhões o acréscimo à dívida trazido pela lei One Big Beautiful Bill. Essa cobertura acrescentou o efeito externo: como os juros dos títulos americanos funcionam como a referência global de risco zero, o patamar deles baliza o custo do crédito no mundo, ainda que a comparação seja assimétrica, com dívida americana de 129% do PIB a um juro de cerca de 3,5% e dívida brasileira pouco acima de 80% do PIB a um juro de 14%.
Veículos de direita não aparecem entre as fontes que cobriram este episódio no conjunto analisado. O argumento de contenção do gasto obrigatório circula na cobertura apenas pela voz de fontes citadas, como o comitê orçamentário apartidário e o escritório de orçamento do Congresso americano, e não por enquadramento editorial próprio desse campo.
O que ainda não se sabe é se o Congresso americano vai enfrentar a equação por aumento de receita, por corte de despesa ou por nenhuma das duas; qual será o valor final dos reembolsos de tarifas depois da decisão da Suprema Corte; se a demanda estrangeira por títulos do Tesouro, hoje em queda e responsável por quase um terço dos papéis, volta a crescer; e o que o Federal Reserve fará com a carteira de aproximadamente US$ 6,8 trilhões em títulos públicos e ativos lastreados em hipotecas.