A República Democrática do Congo chegou a 2.325 mortes e 4.945 casos confirmados de ebola, segundo balanço do Instituto Nacional de Saúde Pública do país com dados de 16 de agosto de 2026. O número transforma a epidemia declarada em maio na mais letal já registrada em território congolês, acima do surto ocorrido no leste do país entre 2018 e 2020, que deixou 2.299 mortos, e a coloca como a segunda mais letal desde que o vírus foi identificado, em 1976, atrás apenas da crise que atingiu Guiné, Libéria e Serra Leoa entre 2014 e 2016, com 28.616 casos e 11.310 mortes. Somente nas 24 horas anteriores à divulgação, as autoridades congolesas identificaram outros 101 casos.
Em informe com dados até 12 de agosto, a Organização Mundial da Saúde contabilizava 4.665 casos confirmados e 2.184 óbitos e descreveu a fase atual como de transmissão intensa, afirmando que o surto se expande mais rapidamente do que qualquer episódio anterior. A entidade falou em excepcional velocidade de transmissão ao registrar que, na semana epidemiológica de 3 a 9 de agosto, foram notificados 579 novos casos e 304 mortes, o maior volume semanal desde o início da epidemia. A taxa bruta de letalidade estava em 46,8%, contra cerca de 20% no começo de junho. A doença, que começou circunscrita à zona de saúde de Mongbwalu, na província de Ituri, alcança hoje 54 zonas de saúde em seis províncias: Ituri, Kivu do Norte, Kivu do Sul, Haut-Uélé, Tshopo e Bas-Uélé.
Há convergência entre as coberturas sobre os pontos estruturais do caso. O surto é provocado pela espécie Bundibugyo, identificada pela primeira vez em 2007, no distrito de mesmo nome, em Uganda, e para a qual não existe vacina aprovada nem antiviral específico, ao contrário do vírus Zaire, responsável por outras grandes epidemias. Candidatos a vacina e a terapia seguem em avaliação. Foi diante desse quadro que a Organização Mundial da Saúde declarou, em 17 de maio, Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, o nível máximo de alerta previsto no Regulamento Sanitário Internacional. A transmissão entre pessoas ocorre pelo contato direto com sangue e outros fluidos corporais de alguém infectado, vivo ou morto, ou com materiais contaminados, e não se dá pelo ar como em doenças respiratórias.
As ênfases, porém, diferem. A cobertura de centro construiu a matéria em torno da série histórica e da atribuição de cada número, separando o balanço da Organização Mundial da Saúde do balanço posterior do governo congolês e registrando a avaliação de especialistas de que o avanço da letalidade não significa necessariamente um vírus mais agressivo, e sim demora para identificar casos e iniciar cuidados médicos. Veículos de direita enfatizaram a dimensão de falha institucional e de risco de espalhamento: destacaram a insegurança decorrente de conflitos internos, os deslocamentos populacionais e a crise humanitária como obstáculos à resposta, e dedicaram trecho próprio ao caso importado detectado na França, cujo paciente recebeu alta em 4 de julho sem que houvesse transmissão secundária. Não houve, no material reunido, cobertura de veículos de esquerda sobre o episódio; a leitura à esquerda desses mesmos fatos tenderia a puxar o eixo para a ausência de vacina contra uma cepa conhecida desde 2007 e para o sistema de saúde sem estrutura que faz metade dos diagnosticados morrer, tratando o financiamento internacional da resposta como obrigação coletiva e não como caridade.
O que ainda não se sabe é se a curva de casos atingiu seu pico e qual é a subnotificação real em zonas afetadas por conflito, onde equipes têm dificuldade de circular. Também não está estabelecido quanto do salto de letalidade se deve ao atraso no atendimento e quanto a características da própria cepa, nem há prazo divulgado para conclusão dos testes com os candidatos a vacina e a tratamento para o vírus Bundibugyo.