Um vídeo publicado por Michelle Bolsonaro nas redes sociais transformou um atrito de bastidores em uma das maiores crises públicas já vistas no núcleo da família Bolsonaro. Nele, a ex-primeira-dama afirma ter sido humilhada pelo senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, que teria dito que ela "não entendia de política" e que seria melhor que ficasse fora das decisões do PL. O episódio, deflagrado pela articulação do partido para apoiar Ciro Gomes ao governo do Ceará, escalou rapidamente para uma disputa nacional pela herança política de Jair Bolsonaro, hoje em prisão domiciliar.
A cobertura de centro relatou os fatos centrais com tom factual. Flávio Bolsonaro divulgou um pedido de desculpas à madrasta e atribuiu o desabafo ao momento difícil que a família atravessa. "Toda nossa família está passando por um momento muito difícil", disse o senador, que pediu união em torno de sua candidatura. Eduardo Bolsonaro, sem se pronunciar diretamente, republicou conteúdos que questionam as motivações de Michelle e reforçam a imagem do irmão como candidato presidencial. O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, alertou que, sem acordo interno, o partido pode perder a eleição: "Se nós não nos entendermos, vamos perder a eleição, e quem vai pagar é o Jair Bolsonaro".
Veículos de esquerda enfatizaram a dimensão de gênero e a fratura da extrema direita. Nessa cobertura, a reação dos aliados de Flávio foi descrita como machista, sobretudo o vídeo do deputado estadual Alcides Fernandes, que acusou Michelle de mentira e ignorância e disse que "roupa suja se lava em casa". O deputado federal Ricardo Salles saiu em defesa da ex-primeira-dama, classificou os ataques como "covardes e oportunistas" e afirmou que ela teria mais chances de derrotar Lula do que Flávio. Para esses veículos, a crise revela que o bolsonarismo coloca o pragmatismo das alianças, como a costurada com Ciro Gomes, acima da coerência ideológica que diz defender.
Veículos de direita e os próprios aliados do senador enfatizaram a necessidade de unidade para a eleição de 2026. Nesse enquadramento, o vídeo de Michelle foi um desabafo emocional inoportuno num momento em que Jair Bolsonaro está preso e o campo precisa montar palanques competitivos nos estados. A aliança com Ciro no Ceará, onde Lula teve quase 70% dos votos em 2022, é defendida como o único caminho viável para impedir a reeleição do governador petista Elmano de Freitas. Flávio busca se firmar como herdeiro eleitoral de Jair Bolsonaro, enquanto Michelle, apoiada no PL Mulher, no voto evangélico e em nomes como Damares Alves e Janaína Paschoal, defende Eduardo Girão para o governo cearense.
Onde os relatos convergem é no diagnóstico de que Michelle ganhou peso próprio dentro do PL e da direita, a ponto de constranger o candidato escolhido pelo ex-presidente. Interlocutores ouvidos pela cobertura de bastidor afirmam que ela chegou a ser cogitada para compor uma chapa com o governador Tarcísio de Freitas, mas foi barrada por Jair Bolsonaro, e que a definição de Flávio como pré-candidato ocorreu num momento de fragilidade de saúde do pai.
O que ainda não se sabe é se a família conseguirá selar uma trégua antes do auge da campanha, qual será o desfecho do impasse cearense entre apoiar Ciro Gomes ou Eduardo Girão, e se, como sugerem aliados de Michelle, existem "informações ainda não divulgadas" capazes de agravar o cenário contra Flávio. Também permanece em aberto o tamanho do dano que a disputa pode causar junto ao eleitorado evangélico, segmento decisivo no qual Michelle tem mais penetração do que o irmão pré-candidato.