O ex-deputado Eduardo Bolsonaro sinalizou publicamente que não apoia a candidatura de Michelle Bolsonaro a uma das duas vagas do Distrito Federal no Senado. No domingo, 23 de agosto de 2026, ele comentou e em seguida compartilhou um vídeo do influenciador Allan dos Santos em que a candidatura da ex-primeira-dama é posta em dúvida. Ao publicar o conteúdo, resumiu a própria avaliação em uma frase: "Triste, mas verdadeiro".
No vídeo, Allan dos Santos afirma preferir a eleição da deputada federal Bia Kicis, do PL do Distrito Federal, e do ex-desembargador Sebastião Coelho, do Novo, à de Michelle Bolsonaro. "Eu prefiro mil vezes Bia Kicis e Sebastião Coelho do que a Michelle com oito anos de incógnita. É uma incógnita, porque nós não sabemos o que ela poderá trazer para a direita", diz o influenciador, que também questiona qual seria a orientação política da ex-primeira-dama caso conquiste uma cadeira.
O episódio chega em momento delicado para Flávio Bolsonaro, senador e candidato do PL à Presidência da República. Nas semanas anteriores, ele e a madrasta protagonizaram movimentos de reaproximação depois de divergências que chegaram a colocar em dúvida o grau de participação dela na campanha presidencial. A intenção declarada era ampliar a presença de Michelle Bolsonaro ao lado do candidato, explorando sua força entre o eleitorado feminino e evangélico. O gesto de Eduardo Bolsonaro, feito dos Estados Unidos, onde ele está desde o ano passado, atravessa essa costura.
Os dois lados da cobertura convergem no núcleo factual. Ninguém contesta o conteúdo do vídeo, a autoria do compartilhamento, a frase escrita por Eduardo Bolsonaro nem o fato de que Michelle Bolsonaro disputa as duas vagas do Distrito Federal com nomes do mesmo campo político. Também há acordo sobre a posição dela nas pesquisas: levantamento da Quaest para o Senado do Distrito Federal, divulgado na terça-feira, 25 de agosto de 2026, aponta Michelle Bolsonaro na liderança com 25%, seguida de Leila do Vôlei, do PDT, com 17%, Erika Kokay, do PT, com 12%, e Bia Kicis com 9%.
As ênfases divergem a partir daí. Veículos de esquerda descreveram o caso como mais um racha na família do ex-presidente Jair Bolsonaro e destacaram o que classificaram como ataques bolsonaristas à ex-primeira-dama, sublinhando que o influenciador associa Michelle Bolsonaro a "pauta feminista" para desqualificá-la e que Flávio Bolsonaro pretende usar imagens ao lado dela para atrair o eleitorado feminino evangélico. Nessa leitura, uma mulher com liderança própria nas pesquisas é tratada como instrumento de campanha alheia.
A cobertura de centro tratou o episódio como disputa de espaço interna a um mesmo campo eleitoral, sem adjetivar os envolvidos, e situou o gesto dentro do calendário da campanha presidencial e da tentativa de recomposição conduzida por Flávio Bolsonaro. Já veículos de direita enquadraram a divergência como debate sobre coerência programática e cálculo de vagas: um mandato de oito anos no Senado é decisão de longo prazo, e a pulverização de candidaturas conservadoras no Distrito Federal pode custar ao campo cadeiras que ele considerava garantidas.
O que ainda não se sabe é decisivo para medir o tamanho do episódio. Nenhuma das reportagens traz manifestação de Michelle Bolsonaro, de Flávio Bolsonaro, da direção do PL ou do próprio Eduardo Bolsonaro além da frase publicada nas redes. Não está esclarecido se o compartilhamento representa uma posição de campanha ou uma reação individual, se haverá orientação partidária sobre as candidaturas ao Senado no Distrito Federal, nem se a ex-primeira-dama seguirá participando dos atos da campanha presidencial. Também não foram divulgados, nas matérias, a margem de erro, o período de campo e o número de entrevistados da pesquisa citada.