O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, jantaram na noite de terça-feira, 4 de agosto, na residência do ministro Alexandre de Moraes, vice-presidente do Supremo Tribunal Federal, em Brasília. O encontro, mediado pelo próprio Moraes e pelo ministro Cristiano Zanin, durou mais de três horas e marcou o fim de meses de silêncio entre os chefes do Executivo e do Legislativo. A conversa não foi anunciada oficialmente por nenhum dos gabinetes e chegou ao público por meio de relatos de participantes, sempre sem identificação.
Os três lados da cobertura convergem no essencial. O jantar teve como objetivo central reconstruir a relação entre o Palácio do Planalto e a presidência do Congresso, deteriorada desde a rejeição, pelo Senado, do nome do então advogado-geral da União, Jorge Messias, indicado por Lula para a vaga aberta no Supremo com a aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso. Aquela derrota foi tratada por todas as coberturas como o marco do afastamento. Há convergência também sobre o tom do encontro, descrito como amistoso, e sobre a decisão de deixar de fora da mesa qualquer discussão sobre uma nova indicação ao Supremo, para evitar novo ponto de atrito.
A partir daí, os enquadramentos se separam. Veículos de esquerda trouxeram a versão mais detalhada do que teria sido negociado: o presidente cobrou empenho do senador para que a proposta que encerra a escala de trabalho 6x1 seja aprovada ainda em 2026 e defendeu uma saída para o impasse das emendas parlamentares, enquanto Alcolumbre pediu apoio para permanecer no comando do Senado no próximo mandato. Nesse recorte, o Executivo aparece defendendo uma agenda de direitos trabalhistas e o Legislativo, cuidando de interesses de cargo e orçamento, com a avaliação final de que o jogo entre os dois estaria zerado.
A cobertura de centro concentrou-se no calendário. Relatou que o fim da escala 6x1, tratado como bandeira eleitoral pelo presidente, entrou na conversa apenas de forma lateral, e que houve consenso entre os participantes de que qualquer discussão sobre o tema deve ficar para depois das eleições de outubro. O argumento registrado é o do impacto político e econômico da medida, que enfrenta resistência de setores empresariais e ainda não tem consenso sobre a forma de tramitação. O ambiente eleitoral, segundo essa leitura, não favorece o avanço de uma matéria dessa natureza.
Veículos de direita enfatizaram o caráter institucional do encontro e afirmaram que temas sensíveis e propostas legislativas em disputa sequer foram tratados durante a conversa. Nesse enquadramento, o jantar aparece como trégua entre Poderes, com destaque para o restabelecimento dos canais de comunicação e para o fato de a costura ter ocorrido na casa de um ministro do Supremo, com a participação de um segundo ministro da Corte. A escala 6x1 e os pedidos pessoais atribuídos aos participantes não aparecem nessa versão.
O contraste é relevante porque duas coberturas afirmam que a jornada de trabalho foi mencionada e uma sustenta que pautas em disputa ficaram fora da mesa. Nenhuma das versões foi confirmada publicamente pelos envolvidos, e todas se apoiam em interlocutores anônimos.
O que ainda não se sabe é considerável. Não há confirmação oficial sobre o teor da conversa nem manifestação de Lula, de Alcolumbre, de Moraes ou de Zanin. Não se conhece o cronograma de tramitação da proposta sobre a escala 6x1, nem qual texto seria levado à votação, nem que solução foi desenhada para o impasse das emendas parlamentares. Também segue em aberto quando e por quem será preenchida a vaga no Supremo que motivou a ruptura, e se o compromisso relatado sobre a presidência do Senado terá efeito prático na articulação do governo no segundo semestre.