O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu a etapa nordestina de sua campanha à reeleição na quinta-feira, 20 de agosto de 2026, com um comício na Arena das Dunas, em Natal, no Rio Grande do Norte, que reuniu cerca de 20 mil pessoas segundo a estimativa divulgada pela organização do ato. Estiveram no palco a governadora Fátima Bezerra, o candidato ao governo do estado Cadu Xavier e os postulantes ao Senado Samanda Alves e Rafael Motta. No discurso, o presidente afirmou que o país não pode voltar a ser governado por quem não gosta de pobre, atribuiu ao investimento público e à pesquisa a retomada do crescimento econômico acima de 3%, defendeu o papel da Petrobras nas novas descobertas de petróleo e prometeu concluir até o fim de 2026 as obras de transposição do Rio São Francisco. Mais cedo, na cidade de Macaíba, ele participou do anúncio da instalação de um supercomputador de inteligência artificial no estado.
A parada em Natal integra um calendário aberto em 16 de agosto em São Bernardo do Campo, em São Paulo, e que segue para Minas Gerais e Rio de Janeiro. Veículos de esquerda destacaram o tamanho do público e a execução de programas federais no Rio Grande do Norte, entre eles o Novo PAC, o Minha Casa Minha Vida, com 54,3 mil moradias contratadas desde 2023, o Mais Médicos, que chegou a 540 profissionais em 131 municípios potiguares, e o Pé-de-Meia, com 151,1 mil estudantes beneficiados. Essa cobertura também enfatizou o crescimento dos repasses da União ao estado, de R$ 6,8 bilhões em 2022 para R$ 9,3 bilhões em 2025, e a criação de 72,6 mil empregos formais entre janeiro de 2023 e maio de 2026.
A cobertura de centro deslocou o foco do palanque para o documento e para a crise. Uma reportagem comparou o programa de governo registrado pela campanha com o de 2022 e mostrou que o texto atual tem 84 páginas e 13 eixos temáticos, contra 33 páginas e 121 diretrizes sequenciais quatro anos antes. A narrativa de reconstrução do país deu lugar à consolidação de entregas do terceiro mandato, como a saída do Brasil do Mapa da Fome, o Novo Arcabouço Fiscal e a reforma tributária sobre o consumo. O mesmo documento incorpora bandeiras recentes, como o fim da escala de trabalho 6 x 1, a jornada de 40 horas sem redução salarial, a regulação do trabalho por aplicativos e a criação de centros de dados e de modelos de inteligência artificial em língua portuguesa, e mantém a oposição à privatização da Petrobras e dos Correios.
Outra reportagem de centro descreveu o outro lado da mesma semana. A campanha do presidente passou a defender a saída do ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde Swedenberger Barbosa do gabinete presidencial, com a avaliação de que o governo precisa se blindar de desdobramentos do caso de desvios do Instituto Nacional do Seguro Social. Mensagens sob análise da Polícia Federal entre a empresária Roberta Luchsinger e Fábio Luís da Silva, filho mais velho do presidente, citam Barbosa e Marco Aurélio Santana Ribeiro, ex-chefe de gabinete que deixou o cargo em julho para coordenar a campanha e se afastou da função no início de agosto. Segundo essa apuração, não apareceram elementos concretos contra o ex-secretário, que teria dito não ter apego ao cargo. O filho do presidente é citado em três inquéritos sobre tráfico de influência no Supremo Tribunal Federal, dois sob relatoria de André Mendonça e um sob relatoria de Flávio Dino.
Veículos de direita não publicaram cobertura própria do comício no conjunto analisado, de modo que os números de execução orçamentária apresentados pela campanha seguem sem contraponto explícito na disputa de enquadramento. Permanece em aberto o desfecho da apuração da Polícia Federal sobre o INSS, a decisão sobre a permanência de Swedenberger Barbosa no gabinete presidencial, o cronograma e o custo dos ramais ainda pendentes da transposição do Rio São Francisco e a forma de financiamento das novas promessas do programa de governo diante do arcabouço fiscal em vigor.