A Rede Sol Fuel Distribuidora, empresa investigada por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital, o PCC, mantém um contrato de R$ 168,8 milhões com o Governo do Rio de Janeiro para abastecer a frota da Polícia Militar fluminense. O acordo foi assinado em março de 2025, tem validade até 2027 e prevê o fornecimento de quase 37 milhões de litros de combustível a 70 postos internos da corporação, espalhados pelos batalhões do estado.
A cobertura de centro, como a do g1, relatou os fatos de forma direta: a empresa é alvo de buscas na Operação Carbono Oculto, que investiga a estrutura financeira do PCC, e o vínculo com o governo estadual segue de pé quase um ano após a deflagração da operação. Questionada sobre por que mantém contrato com uma empresa sob investigação, a Polícia Militar afirmou que o acordo é legal, mas anunciou que abrirá uma nova licitação para o abastecimento das viaturas. O Palácio Guanabara não quis comentar os questionamentos.
Os detalhes do contrato convergem em todas as fontes. Do valor total, R$ 147,8 milhões correspondem a 32 milhões de litros de gasolina e R$ 20,9 milhões a mais de 4 milhões de litros de diesel S10. O preço não é fixo: a remuneração da distribuidora é calculada com base no preço médio de revenda ao consumidor divulgado semanalmente pela Agência Nacional do Petróleo, a ANP, com desconto do ICMS e um abatimento contratual de 1,54% oferecido pela empresa. Desde a assinatura, o contrato passou por ao menos três alterações para incluir novas fontes de recursos orçamentários, entre elas verbas do Fundo Especial da PM e de um convênio com a Prefeitura de Barra do Piraí.
A ligação com o crime organizado é o ponto que sustenta a relevância da história. Segundo o Ministério Público de São Paulo, a Rede Sol é uma das empresas cujas notas comerciais foram adquiridas pelo Mabruk II Fundo de Investimento, no valor de R$ 30 milhões. De acordo com a Receita Federal, o Mabruk II é um dos 40 investigados como financiadores das aquisições do PCC no mercado.
É na ênfase que as coberturas se separam. Veículos de esquerda, como a Revista Fórum, destacaram o ângulo político: associaram o caso ao governo de Cláudio Castro e a nomes do bolsonarismo, citando a entrega de viaturas ao lado de Flávio Bolsonaro e a informação de que o filho de um bolsonarista teria sido sócio de um diretor da distribuidora. Para essa cobertura, a permanência do contrato e o silêncio do Palácio Guanabara revelam como recursos públicos podem acabar alimentando estruturas do crime sob uma gestão de direita. Uma leitura pela ótica de direita tenderia a enfatizar que não há condenação, que o contrato foi firmado em condições de mercado com desconto sobre a média da ANP, e que a abertura de nova licitação é uma medida prudente, lembrando que vale o devido processo legal antes de qualquer juízo definitivo sobre a empresa.
O que ainda não se sabe permanece em aberto. Não há esclarecimento público sobre a posição técnica da Rede Sol Fuel diante das acusações, sobre se existe alguma decisão judicial determinando a suspensão ou a manutenção do contrato, nem sobre o cronograma e as regras da nova licitação anunciada pela Polícia Militar. O Palácio Guanabara, até o fechamento das reportagens, não respondeu aos questionamentos.