Uma mina de terras raras no norte de Goiás virou peça de uma disputa global por minerais críticos. O projeto Pela Ema está no centro de uma transação de US$ 1,5 bilhão que dá ao grupo americano USA Rare Earth o controle integral do ativo, operação com conclusão prevista para o fim de agosto. Do montante mobilizado, US$ 750 milhões vieram do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, sob o governo de Donald Trump, o que desloca o negócio do terreno estritamente privado para o de política externa e industrial americana.
A jazida é descrita como a única de argila iônica em escala comercial fora da Ásia, característica que a torna incomum no mercado global. Dela saem quatro minerais de terras raras usados na fabricação de ímãs permanentes, componentes de motores elétricos, turbinas eólicas, robótica, eletrônicos e equipamentos militares. A expectativa é que a unidade responda por mais da metade da produção de terras raras pesadas fora da China a partir de 2027.
Há convergência entre as coberturas sobre o pano de fundo. Os dois lados reconhecem que o Brasil detém reservas expressivas, sobretudo depósitos de argila de adsorção iônica ricos em terras raras pesadas, e que a China concentra cerca de 90% da capacidade mundial de separação e refino, além de posição dominante na fabricação de ímãs. Também não há disputa sobre o fato de que a maior fatia do valor econômico está nas etapas seguintes à extração: estimativas reunidas em estudo do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos situam em cerca de US$ 3 bilhões o mercado ligado à mineração e concentração, em cerca de US$ 5 bilhões o de refino e em cerca de US$ 40 bilhões o de produtos finais.
A divergência aparece no significado do negócio. Veículos de direita enfatizaram o caráter estratégico da entrada de capital americano, a parceria da empresa compradora com o governo dos Estados Unidos e o esforço ocidental de montar uma cadeia de suprimentos fora da China, apresentando a operação como reforço da posição brasileira no fornecimento de minerais críticos. Veículos de esquerda destacaram o outro lado da mesma equação: sem separação, refino, produção de metais, ligas e fábrica de ímãs em território nacional, o país fica com a etapa de menor valor. O cálculo apresentado nessa cobertura é direto: 20 mil toneladas anuais de concentrado a um preço médio ilustrativo de US$ 10 por quilograma renderiam cerca de US$ 200 milhões por ano, enquanto o mesmo material transformado em ímãs permanentes poderia sustentar algo próximo de US$ 700 milhões anuais de faturamento industrial. O próprio texto ressalva que faturamento não é lucro nem produto interno bruto, e que insumos importados, energia e custos operacionais precisam ser descontados. Não foi identificada cobertura de centro sobre o caso no conjunto de fontes reunido, o que deixa o relato factual da transação e a análise de política industrial sem um terceiro relato que os confronte.
O caminho proposto no estudo do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos prevê que, entre 2026 e 2030, o país estabeleça bases para sua primeira planta industrial de separação, desenvolva refino de óxidos de alta pureza, produza metais de terras raras e instale uma planta piloto de ímãs de neodímio-ferro-boro, com ganho de escala na etapa seguinte. Especialista do setor citado na cobertura considera realista que o Brasil construa capacidade de processamento e uma indústria de ímãs em cerca de dez anos, desde que haja política pública e ambiente regulatório favoráveis.
O que ainda não se sabe é boa parte do essencial. Nenhuma das coberturas identifica quem vende o ativo, se a operação depende de aprovação de órgãos reguladores brasileiros, se há contrapartida de processamento em território nacional ou qual o destino final do minério extraído. Também não há posição pública do governo brasileiro nem da Agência Nacional de Mineração sobre a transação, nem informação sobre licenciamento ambiental, uso de água e efeitos sobre as comunidades do entorno da mina em Goiás.