O senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro e candidato à Presidência da República, atua como advogado de um empresário em ação que tramita no Superior Tribunal de Justiça, o STJ. No mesmo processo, a defesa do cliente também tem o advogado Willer Tomaz, amigo próximo do candidato. Até o momento, apenas um veículo cobriu o caso.
Segundo essa reportagem, a petição mais recente de Flávio foi protocolada às 23h23 de 14 de outubro. Naquele dia, o senador participou de um comício em Porto Alegre e votou à distância a favor da Proposta de Emenda à Constituição que acaba com a escala de trabalho 6x1. Ele registrou presença na sessão do Senado por volta das 20h30. A peça, dirigida à relatora, ministra Daniela Teixeira, pede que sejam rejeitados embargos de declaração apresentados pela parte contrária.
O cliente é Mário Gadelha Simas Filho, envolvido numa disputa entre sócios da Simas Industrial de Alimentos, uma das maiores fabricantes de balas e pirulitos do país. Flávio entrou no caso em 2022. Willer já representava o empresário e nunca teve a procuração revogada, mas, desde então, é o senador quem assina as peças. A Simas aparece como o segundo maior cliente do escritório de Flávio, com três notas fiscais que somam 3,3 milhões de reais entre 2023 e 2024.
O escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia foi aberto em 2021, não tem outros sócios e não tem funcionários formais registrados. Funciona no endereço da casa do senador, em Brasília. De acordo com levantamento citado na reportagem, emitiu ao menos 13,7 milhões de reais em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho deste ano. A administradora é Letícia Caetano dos Reis, irmã de um contador que a Polícia Federal aponta como sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, o chamado Careca do INSS, numa empresa nas Ilhas Virgens Britânicas.
As relações entre Flávio e Willer são investigadas pela Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro. Documentos do inquérito indicam que o senador tinha acesso de usuário master à conta bancária da Alcazar, uma holding de Willer, até maio de 2025. As famílias dos dois viajaram com passagens compradas pela Cathedral Holding, única acionista da Rede Loto, dona da marca de apostas BestBet.
A lei permite que parlamentares advoguem, desde que não atuem contra ou a favor de entes públicos, empresas estatais, autarquias ou concessionárias de serviço público. A reportagem enquadra o caso pela coincidência de agenda e pela proximidade com um investigado. Já as defesas sustentam outra leitura. A campanha de Flávio afirma que a relação com Willer é de amizade e que associá-la a irregularidades é mera ilação. O senador nega ter tido acesso à conta da Alcazar. A assessoria de Willer diz que todas as suas empresas são lícitas e declaradas e que amizade não é crime.
Ainda não se sabe se o inquérito da Polícia Federal resultará em acusação formal. Flávio, Willer e a Simas não responderam sobre a atuação no processo, e não há informação sobre os valores pagos especificamente pelo caso no STJ nem sobre a divisão de trabalho entre os dois advogados.