O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) protocolou, nesta quinta-feira, 2 de julho de 2026, uma manifestação no Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, pedindo a suspensão do novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros. O argumento central do documento é que a medida, se aplicada agora, beneficiaria eleitoralmente o presidente Lula (PT) na disputa de outubro, e por isso a decisão deveria ficar para depois do pleito. O caso ganhou destaque porque, ao tentar rebater a alegação americana de que o Brasil não combate a corrupção de forma suficiente, Flávio recorreu ao escândalo do Banco Master, que classificou como a maior fraude bancária da história do país.
A cobertura de centro, de veículos como a agência da Folha e a Estadão Conteúdo, relatou de forma factual o conteúdo da carta. Flávio associou o caso Master ao governo Lula, ao PT e ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Citou a contratação, pelo controlador do banco, de ex-ministros como Guido Mantega e Ricardo Lewandowski, e mencionou o senador Jaques Wagner (PT-BA). Argumentou ainda que os Estados Unidos já haviam adotado uma sanção individual contra Moraes com base na Lei Magnitsky, e que substituí-la por uma tarifa ampla puniria exportadores, importadores e consumidores americanos, sem atingir diretamente o ministro. O senador também pediu a retomada do diálogo comercial entre os dois países.
O ponto em que todos os lados convergem é factual: no mesmo documento em que denuncia a rede de proximidade entre o Banco Master e a estrutura de governo, Flávio omitiu sua própria relação com Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição. Reportagens lembram que Vorcaro financiou com cerca de 61 milhões de reais a produção do filme 'Dark Horse', de propaganda pró-Jair Bolsonaro, e que diálogos revelados mostram o senador chamando o banqueiro de 'irmão' e cobrando recursos. A apuração sobre esse financiamento tramita no STF, na Polícia Federal e na Controladoria-Geral da União.
É na interpretação desses fatos que a cobertura se divide. Veículos de esquerda, como a CartaCapital, enquadraram o gesto como subordinação a interesses estrangeiros e hipocrisia: para eles, Flávio instrumentaliza a política comercial dos EUA para fins eleitorais, ao mesmo tempo em que esconde os próprios laços com Vorcaro. Nessa leitura, o pedido de adiar o tarifaço equivale a admitir o temor de perder a eleição, e a reação de Lula, que chamou o pedido de 'atitude de traidores da Pátria', ganha centralidade. Já veículos de direita tendem a enfatizar o mérito do argumento de Flávio: o tarifaço puniria a economia brasileira e o consumidor americano sem atingir os responsáveis pela escalada institucional, e o caso Master expõe a proximidade entre o banco e a cúpula petista. Essa vertente também valoriza as críticas do senador ao que descreve como 'censura' imposta por decreto e por decisões do STF sobre as redes sociais, defendendo que a solução passe pelo Congresso e pela urna.
O que ainda não se sabe é o desfecho concreto: não há resposta oficial do governo Trump ou do USTR ao pedido de adiamento, nem manifestação formal de Flávio sobre a omissão apontada. Também seguem em aberto os desdobramentos das investigações sobre o financiamento de 'Dark Horse' e o alcance das associações que o senador fez entre o caso Master, Moraes e o governo Lula.