O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) protocolou no Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, uma manifestação pedindo a suspensão de um novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros. No documento, tornado público em 2 de julho de 2026, o senador pede que a medida seja adiada para depois das eleições de outubro, sob o argumento de que a pressão comercial neste momento beneficiaria eleitoralmente o presidente Lula.
O ponto que unifica a cobertura de todos os lados é uma omissão. Ao tratar do caso do Banco Master, que classifica como a maior fraude bancária da história do país, Flávio associa o escândalo ao governo Lula, ao PT e ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, mas não menciona sua própria relação com Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco. Reportagens lembram que Vorcaro chegou a pagar cerca de 61 milhões de reais para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, e que um áudio de setembro de 2025 mostra o senador cobrando mais recursos ao banqueiro, a quem tratava por irmão e mermão em mensagens.
A cobertura de centro, feita por agências como Estadão Conteúdo e Folhapress, detalha o conteúdo da carta com tom factual. Esses veículos registram que a expressão maior fraude bancária foi usada originalmente pelo ex-ministro Fernando Haddad, em janeiro, e que Flávio cita a contratação, pelo Master, de ex-ministros ligados ao governo petista, como Guido Mantega, Ricardo Lewandowski e o senador Jaques Wagner. A cobertura de centro também contextualiza os dois lados de outros pontos da carta: sobre o escândalo dos descontos do INSS, por exemplo, aponta tanto que o problema explodiu após 2022 quanto que Jair Bolsonaro sancionou, naquele ano, medida que enfraqueceu o controle sobre esses descontos.
Veículos de esquerda deram à carta um enquadramento militante. A cobertura de esquerda descreveu o gesto como entreguista e como submissão aos interesses dos Estados Unidos, comparando o documento ao telegrama que o embaixador norte-americano enviou às vésperas do golpe de 1964 e associando o projeto político do grupo a um ideário autoritário e regressivo em direitos das mulheres. Esses veículos enfatizaram a queda de Flávio nas pesquisas, a rejeição crescente e o racha com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, além de destacarem a reação de Lula, que chamou o pedido de atitude de traidores da Pátria e afirmou que a Pátria não está à venda.
O ângulo que uma cobertura de direita tenderia a enfatizar aparece dentro dos argumentos da própria carta, reproduzidos pelos veículos de centro: a alegação de que o novo tarifaço puniria a economia brasileira, exportadores e consumidores americanos sem atingir os responsáveis, a defesa de não aplicar uma medida irreversível às vésperas da eleição e a crítica ao que Flávio chama de censura imposta por decreto e por decisões do Supremo, sem passar pelo Congresso. No cluster analisado, porém, veículos de direita não cobriram a história com destaque próprio, o que caracteriza um ponto cego dessa cobertura.
O que ainda não se sabe é como a defesa de Flávio Bolsonaro responderá formalmente às acusações de omissão sobre Vorcaro, qual será a decisão do governo Trump sobre o pedido de adiamento e como as apurações em curso no Supremo Tribunal Federal, na Polícia Federal e na Controladoria-Geral da União sobre o financiamento de Dark Horse podem se desdobrar no calendário eleitoral.